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SOBRE A SOLIDÃO DE PESSOAS TRANS E TRAVESTIS estar em si - Quando paramos para pensar na vida de uma pessoa trans, de uma travesti, muitas vezes nem fazemos ideia do que ela irá passar. Muitos não sabem das dificuldades que passamos com emprego, na alteração dos documentos, com os estudos, e também com os relacionamentos. Quando falamos em relacionamento, automaticamente me lembro de todas as histórias […] Full view

Quando paramos para pensar na vida de uma pessoa trans, de uma travesti, muitas vezes nem fazemos ideia do que ela irá passar. Muitos não sabem das dificuldades que passamos com emprego, na alteração dos documentos, com os estudos, e também com os relacionamentos.

Quando falamos em relacionamento, automaticamente me lembro de todas as histórias que já ouvi sobre pessoas trans que são sozinhas, que estão sozinhas. E não porque querem, mas porque existe uma solidão estrutural para pessoas como nós.

Suponhamos que uma menina trans, aos seus 18 anos, ainda não transicionada, ou seja, ainda não externou quem ela é, namore com um rapaz e ambos sejam vistos como dois meninos gays. Certo dia, essa menina decide transicionar, pois está cansada de ser vista como um garoto, está cansada de ter seu gênero julgado de forma errada. Ao decidir transicionar, ela conta a verdade para o seu namorado, que sempre disse que a amava muito, que sempre deixou bem claro suas intenções de relacionamento, mas o amor que antes existia parece ter evaporado. O rapaz decide não se relacionar com um “traveco” porque tem medo de como as pessoas podem reagir e do que os amigos e familiares podem dizer.

Não, coração. Toda a minha vida eu me “fantasiei” de homem.

Essa menina trans, já com seus 19 anos, transicionada, não se relaciona com mais ninguém desde que o seu ex e a dispensou por ser trans. Então ela começa a perceber que, enquanto hetero (pois ela é uma mulher que gosta de homem), os rapazes não se interessam por ela. Aparecem um ou dois querendo saber apenas de sexo, deixando claro que mulheres como ela só servem pra isso. Em um dos casos, ela não liga e transa com o cara mesmo assim. Isso porque estava sozinha, solitária, e acha que a única forma de receber afeto é transando com uma pessoa que a vê como um objeto sexual, que a vê como um serexótico.

Mesmo tendo transado com esse rapaz, essa mulher, que até então era uma menina, ainda se sente sozinha. Ela percebe que os amigos e amigas dela (os que ficaram ao seu lado) já entraram ou sairam de relacionamentos umas duas vezes, e ela continua sozinha. Ela começa a pensar que relacionamentos parecem não ser algo para ela.

Então, assim como a maioria das pessoas, ela decide ir pra balada. Ela acha que na balada pode ficar com alguém e conhecer alguém legal, que entenda a particularidade dela enquanto mulher trans. Nessa balada, acaba ficando com um cara que chegou nela, que achou ela linda. Minutos depois, o rapaz com quem ela havia ficado na balada, volta e a agride, pois não sabia que tinha ficado com “um traveco”, e onde já se viu nós não avisarmos em lugares públicos, logo de cara, que somos trans e travestis. Daquela noite em diante, ela começa a ficar com um certo receio de balada, e decide não ir mais.

Ela, então, decide tentar os aplicativos e sites de relacionamento. Pensando que lá, por não ser algo presencial, físico, poder ter mais segurança. Logo em seu perfil, ela escreve seus interesses, seus gostos e escreve que é uma mulher trans. Os rapazes que vão se aproximando dela, a acham linda, incrível, inteligente, maravilhosa. Ao conversarem com ela nesse aplicativo, não notam no perfil que ela é uma mulher trans, e essa garota fala isso nas conversas, pra ver se eles prestam atenção dessa vez. Em todos os casos ela lê que eles “querem uma mulher de verdade”, que ela “é maravilhosa e até parece mulher”, que ela era incrível, maravilhosa, perfeita, deusa, gostosa, mas só serve pra ser amiga, pois “você sabe como é, né”.

 

odioMe fala de novo como tu acha que Deus vai julgar os outros por quem eles amam e não vai te julgar por odiar alguém que tu nem conhece?

Esses casos acontecem não apenas com mulheres trans e travestis, acontecem com todas as pessoas trans. O tempo todo sempre existe algo que faz com que as pessoas não se relacionem conosco, não queriam ser vistas conosco, não queiram ter algo sério conosco, dando a entender que não somos dignas de relacionamentos, que não estamos à altura das pessoas cisgêneras (aquelas que não são trans) para namorar, para arranjar emprego, para qualquer coisa que seja.

Quando uma pessoa cis acaba se desapontando em um relacionamento, ela sempre escuta “bola pra frente, vira a página, procura outra pessoa”, e nós não temos isso. Geralmente essa “outra pessoa” não existe. A regra é que pessoas trans e travestis não tenham relacionamentos, e a exceção são pessoas que acabam se relacionando com elas porque as amam como elas são, as amam como trans, como travestis. Mas volto a dizer, isso é exceção à regra.

Em diversos casos, pessoas trans acabam ficando em relacionamentos abusivos, porque ali elas se sentem “amadas“, porque ali tem uma pessoa que finge demonstrar carinho, atenção, amor, e isso é algo que dificilmente temos.

Nós, pessoas trans e travestis, não somos seres de outro planeta que engoliremos a cabeça de vocês, pessoas cis.

Nós somos pessoas normais, com nossas particularidades, e não deveríamos ser menos amadas por isso. Como quase todas as pessoas almejamos um relacionamento saudável, estável, duradouro no qual a pessoa não tenha vergonha de nós, porque se há algo pra ter vergonha, é da transfobia dessas pessoas em não nos assumir, nos trocar por pessoas cisgêneras e em achar que somos menos por sermos trans.

Ariel Nolasco

SOBRE A SOLIDÃO DE PESSOAS TRANS E TRAVESTIS

Quando paramos para pensar na vida de uma pessoa trans, de uma travesti, muitas vezes nem fazemos ideia do que ela irá passar. Muitos não sabem das dificuldades que passamos com emprego, na alteração dos documentos, com os estudos, e também com os relacionamentos.

Quando falamos em relacionamento, automaticamente me lembro de todas as histórias que já ouvi sobre pessoas trans que são sozinhas, que estão sozinhas. E não porque querem, mas porque existe uma solidão estrutural para pessoas como nós.

Suponhamos que uma menina trans, aos seus 18 anos, ainda não transicionada, ou seja, ainda não externou quem ela é, namore com um rapaz e ambos sejam vistos como dois meninos gays. Certo dia, essa menina decide transicionar, pois está cansada de ser vista como um garoto, está cansada de ter seu gênero julgado de forma errada. Ao decidir transicionar, ela conta a verdade para o seu namorado, que sempre disse que a amava muito, que sempre deixou bem claro suas intenções de relacionamento, mas o amor que antes existia parece ter evaporado. O rapaz decide não se relacionar com um “traveco” porque tem medo de como as pessoas podem reagir e do que os amigos e familiares podem dizer.

Não, coração. Toda a minha vida eu me “fantasiei” de homem.

Essa menina trans, já com seus 19 anos, transicionada, não se relaciona com mais ninguém desde que o seu ex e a dispensou por ser trans. Então ela começa a perceber que, enquanto hetero (pois ela é uma mulher que gosta de homem), os rapazes não se interessam por ela. Aparecem um ou dois querendo saber apenas de sexo, deixando claro que mulheres como ela só servem pra isso. Em um dos casos, ela não liga e transa com o cara mesmo assim. Isso porque estava sozinha, solitária, e acha que a única forma de receber afeto é transando com uma pessoa que a vê como um objeto sexual, que a vê como um serexótico.

Mesmo tendo transado com esse rapaz, essa mulher, que até então era uma menina, ainda se sente sozinha. Ela percebe que os amigos e amigas dela (os que ficaram ao seu lado) já entraram ou sairam de relacionamentos umas duas vezes, e ela continua sozinha. Ela começa a pensar que relacionamentos parecem não ser algo para ela.

Então, assim como a maioria das pessoas, ela decide ir pra balada. Ela acha que na balada pode ficar com alguém e conhecer alguém legal, que entenda a particularidade dela enquanto mulher trans. Nessa balada, acaba ficando com um cara que chegou nela, que achou ela linda. Minutos depois, o rapaz com quem ela havia ficado na balada, volta e a agride, pois não sabia que tinha ficado com “um traveco”, e onde já se viu nós não avisarmos em lugares públicos, logo de cara, que somos trans e travestis. Daquela noite em diante, ela começa a ficar com um certo receio de balada, e decide não ir mais.

Ela, então, decide tentar os aplicativos e sites de relacionamento. Pensando que lá, por não ser algo presencial, físico, poder ter mais segurança. Logo em seu perfil, ela escreve seus interesses, seus gostos e escreve que é uma mulher trans. Os rapazes que vão se aproximando dela, a acham linda, incrível, inteligente, maravilhosa. Ao conversarem com ela nesse aplicativo, não notam no perfil que ela é uma mulher trans, e essa garota fala isso nas conversas, pra ver se eles prestam atenção dessa vez. Em todos os casos ela lê que eles “querem uma mulher de verdade”, que ela “é maravilhosa e até parece mulher”, que ela era incrível, maravilhosa, perfeita, deusa, gostosa, mas só serve pra ser amiga, pois “você sabe como é, né”.

 

odioMe fala de novo como tu acha que Deus vai julgar os outros por quem eles amam e não vai te julgar por odiar alguém que tu nem conhece?

Esses casos acontecem não apenas com mulheres trans e travestis, acontecem com todas as pessoas trans. O tempo todo sempre existe algo que faz com que as pessoas não se relacionem conosco, não queriam ser vistas conosco, não queiram ter algo sério conosco, dando a entender que não somos dignas de relacionamentos, que não estamos à altura das pessoas cisgêneras (aquelas que não são trans) para namorar, para arranjar emprego, para qualquer coisa que seja.

Quando uma pessoa cis acaba se desapontando em um relacionamento, ela sempre escuta “bola pra frente, vira a página, procura outra pessoa”, e nós não temos isso. Geralmente essa “outra pessoa” não existe. A regra é que pessoas trans e travestis não tenham relacionamentos, e a exceção são pessoas que acabam se relacionando com elas porque as amam como elas são, as amam como trans, como travestis. Mas volto a dizer, isso é exceção à regra.

Em diversos casos, pessoas trans acabam ficando em relacionamentos abusivos, porque ali elas se sentem “amadas“, porque ali tem uma pessoa que finge demonstrar carinho, atenção, amor, e isso é algo que dificilmente temos.

Nós, pessoas trans e travestis, não somos seres de outro planeta que engoliremos a cabeça de vocês, pessoas cis.

Nós somos pessoas normais, com nossas particularidades, e não deveríamos ser menos amadas por isso. Como quase todas as pessoas almejamos um relacionamento saudável, estável, duradouro no qual a pessoa não tenha vergonha de nós, porque se há algo pra ter vergonha, é da transfobia dessas pessoas em não nos assumir, nos trocar por pessoas cisgêneras e em achar que somos menos por sermos trans.

Ariel Nolasco

Por: shakyamuni

1 Comentários

  • Olá, meu nome é Lucas e sou um menino trans. Em todos os relacionamentos que já estive eu me senti um fardo. A pessoa me amava mas seus pais me odiavam, e no final eu acabava sozinho. É difícil nos amar, não porque somos pessoas difíceis, mas porque as circunstâncias são. O mundo nos trata como fetiche, as pessoas nos veem como segunda opção.
    Eu amei seu texto, ele retrata exatamente a dor que nós passamos. Eu queria dizer pra cada pessoa trans que se sente sozinho no mundo que a sua coragem de ser você mesmo vale mais a pena do que estar num relacionamento abusivo apenas para se sentir completo.

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