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O PESO DA SOMBRA felicidade estar em si 1 - Dias desses, um amigo se disse desacorçoado. Achei muito boa a palavra na correspondência com a imagem que faço do implacável des-sentimento depressivo. Então corri ao pai dos burros para pedir uma benção. Desacorçoado é o mesmo que descoroçoado ou desacoroçado. Trata-se de um termo nascido na floresta amazônica, onde o caroço é tido como […] Full view

Dias desses, um amigo se disse desacorçoado. Achei muito boa a palavra na correspondência com a imagem que faço do implacável des-sentimento depressivo. Então corri ao pai dos burros para pedir uma benção. Desacorçoado é o mesmo que descoroçoado ou desacoroçado. Trata-se de um termo nascido na floresta amazônica, onde o caroço é tido como o coração das frutas. Está lá: Acoroçoar: Fazer sentir ou sentir coragem, ânimo, vontade; encorajar(-se), animar(-se). De modo que está assim quem se deixou enovelar nas tramas negras da prostração: sem coração, sem caroço, sem ânimo, sem alma.

Quando na escola estudávamos Depressão, era só geografia, disso eu me lembro bem. Tratava-se apenas de uma cavidade, um afundamento, uma cova na superfície do solo. E o que é em nosso peito a depressão senão também uma espécie de buraco? Deve ser por isso que, quando se está assim, como direi, funcionando no modo "abandono irreversível", só se quer uma coisa: enfiar a cabeça na terra, dormir. Se possível, para sempre. Ou, em outra palavra, morrer.

Os médicos descrevem a depressão como abatimento moral. E deve ser assim mesmo a tristeza em um diagnóstico clínico: mais triste ainda. O fato é que se trata apenas de um sintoma. E, como toda dor, é um aviso essencial, sem o qual não existiríamos como espécie. Toda dor é um indício de algo muito maior e mais importante que ela mesma. E, afinal, por que não seria assim com a depressão?

Certa vez, cheguei mesmo a pensar que a depressão talvez fosse nosso corpo clamando por mudança. A lógica se baseava no fato de que nosso organismo, sem querer ou sem ter como abrir uma chaga em sua unidade física saudável, inflama-nos a própria alma, entristecendo tudo dentro, escurecendo tudo em volta. Mas a ciência já comprovou que tudo não passa de uma simples deficiência química, o coração em chamas. E é coisa facilmente ajustável, hoje em dia, com uma dose diária de um hormônio específico que deve, sei lá eu como, habitar os milagrosos comprimidos antidepressivos, as chamadas pílulas da felicidade.

Mas o que em nós, humanos, opera a tal enfermidade do espírito é impossível de ser descrito em um laudo, uma prescrição, um boletim médico, um simples receituário com carimbos roxos, blues. Recorro à literatura, o que não vai na receita: a obscuridade densa da depressão é como um céu marrom escuro que baixa sobre nosso meio-dia. É mais ou menos assim: uma imensa sombra escorre sobre nosso sol antes mesmo que surja no horizonte o primeiro raio de luz, eclipsando-o antes da possibilidade remota da alegria ou de qualquer centelha de vontade, de qualquer chama de esperança.

Ao contrário do famoso "descansar à sombra", sob essa mancha escura nunca se descansa, pois, envolto em sua obscura teia, é como se existir, por si só, já fosse insuportável fardo, como se apenas ser já nos esgotasse de antemão, seres que somos. Enfim, o peso insuportável dessa sombra é em si o seu pesar sobre a vida.

Na ponta da mesa, minha mãe juntava moedas em um pilha e depois as enrolava cuidadosamente em uma fita crepe. Lembrei-me do tempo em que, naquele mesmo lugar, ajudava-a no almoço, menino catando feijão sobre a tábua, tempo em que ainda se catavam feijões e se falavam de avencas.

Voltando às torres de moedas, intrigado com a operação meticulosa, indaguei-lhe o motivo do trabalho em vão, posto que as pilhas sequer formavam valor exato, redondo. Ela caprichou em mais uma pequena coluna aleatória e justificou-se, dizendo que aguardava a chegada de um neto que adorava desfazer os montes de níquel do adesivo.

Uma pausa luminosa clareou meu pensamento no silêncio que se deu a seguir, enquanto a ela assistia rematando mais um montinho de centavos a esmo para ser tirado logo em seguida do durex. Foi quando ela disse, distraidamente, a frase talhada por toda a sua longa vida de entregas e entregue ali a mim, como um enorme presente em laço dourado:

- Ah, meu filho, a felicidade é quase nada…

Marcílio Godoi

O PESO DA SOMBRA

Dias desses, um amigo se disse desacorçoado. Achei muito boa a palavra na correspondência com a imagem que faço do implacável des-sentimento depressivo. Então corri ao pai dos burros para pedir uma benção. Desacorçoado é o mesmo que descoroçoado ou desacoroçado. Trata-se de um termo nascido na floresta amazônica, onde o caroço é tido como o coração das frutas. Está lá: Acoroçoar: Fazer sentir ou sentir coragem, ânimo, vontade; encorajar(-se), animar(-se). De modo que está assim quem se deixou enovelar nas tramas negras da prostração: sem coração, sem caroço, sem ânimo, sem alma.

Quando na escola estudávamos Depressão, era só geografia, disso eu me lembro bem. Tratava-se apenas de uma cavidade, um afundamento, uma cova na superfície do solo. E o que é em nosso peito a depressão senão também uma espécie de buraco? Deve ser por isso que, quando se está assim, como direi, funcionando no modo “abandono irreversível”, só se quer uma coisa: enfiar a cabeça na terra, dormir. Se possível, para sempre. Ou, em outra palavra, morrer.

Os médicos descrevem a depressão como abatimento moral. E deve ser assim mesmo a tristeza em um diagnóstico clínico: mais triste ainda. O fato é que se trata apenas de um sintoma. E, como toda dor, é um aviso essencial, sem o qual não existiríamos como espécie. Toda dor é um indício de algo muito maior e mais importante que ela mesma. E, afinal, por que não seria assim com a depressão?

Certa vez, cheguei mesmo a pensar que a depressão talvez fosse nosso corpo clamando por mudança. A lógica se baseava no fato de que nosso organismo, sem querer ou sem ter como abrir uma chaga em sua unidade física saudável, inflama-nos a própria alma, entristecendo tudo dentro, escurecendo tudo em volta. Mas a ciência já comprovou que tudo não passa de uma simples deficiência química, o coração em chamas. E é coisa facilmente ajustável, hoje em dia, com uma dose diária de um hormônio específico que deve, sei lá eu como, habitar os milagrosos comprimidos antidepressivos, as chamadas pílulas da felicidade.

Mas o que em nós, humanos, opera a tal enfermidade do espírito é impossível de ser descrito em um laudo, uma prescrição, um boletim médico, um simples receituário com carimbos roxos, blues. Recorro à literatura, o que não vai na receita: a obscuridade densa da depressão é como um céu marrom escuro que baixa sobre nosso meio-dia. É mais ou menos assim: uma imensa sombra escorre sobre nosso sol antes mesmo que surja no horizonte o primeiro raio de luz, eclipsando-o antes da possibilidade remota da alegria ou de qualquer centelha de vontade, de qualquer chama de esperança.

Ao contrário do famoso “descansar à sombra”, sob essa mancha escura nunca se descansa, pois, envolto em sua obscura teia, é como se existir, por si só, já fosse insuportável fardo, como se apenas ser já nos esgotasse de antemão, seres que somos. Enfim, o peso insuportável dessa sombra é em si o seu pesar sobre a vida.

Na ponta da mesa, minha mãe juntava moedas em um pilha e depois as enrolava cuidadosamente em uma fita crepe. Lembrei-me do tempo em que, naquele mesmo lugar, ajudava-a no almoço, menino catando feijão sobre a tábua, tempo em que ainda se catavam feijões e se falavam de avencas.

Voltando às torres de moedas, intrigado com a operação meticulosa, indaguei-lhe o motivo do trabalho em vão, posto que as pilhas sequer formavam valor exato, redondo. Ela caprichou em mais uma pequena coluna aleatória e justificou-se, dizendo que aguardava a chegada de um neto que adorava desfazer os montes de níquel do adesivo.

Uma pausa luminosa clareou meu pensamento no silêncio que se deu a seguir, enquanto a ela assistia rematando mais um montinho de centavos a esmo para ser tirado logo em seguida do durex. Foi quando ela disse, distraidamente, a frase talhada por toda a sua longa vida de entregas e entregue ali a mim, como um enorme presente em laço dourado:

– Ah, meu filho, a felicidade é quase nada…

Marcílio Godoi

Por: shakyamuni

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