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O CORPO FALA alexander_lowen - Criador da Bioenergética e autor de dezenas de livros considerados referenciais por terapeutas do mundo inteiro, Alexander Lowen esteve no Brasil em 1990. Na ocasião, concedeu uma longa entrevista a Ralph Vianna, psicoterapeuta corporal e um dos pioneiros na difusão do pensamento reichiano no Brasil. Vinte e quatro anos depois, os conceitos expressos por Lowen seguem vivos e […] Full view

Criador da Bioenergética e autor de dezenas de livros considerados referenciais por terapeutas do mundo inteiro, Alexander Lowen esteve no Brasil em 1990. Na ocasião, concedeu uma longa entrevista a Ralph Vianna, psicoterapeuta corporal e um dos pioneiros na difusão do pensamento reichiano no Brasil. Vinte e quatro anos depois, os conceitos expressos por Lowen seguem vivos e válidos. Qual a relação entre a perspectiva freudiana e a perspectiva terapêutica corporal. Em outras palavras, em que medida a Bioenergética é um tipo de psicanálise? A tradição da Bioenergética vem de Freud e passa fundamentalmente por Wilhelm Reich, mas muitas mudanças ocorreram em vários conceitos básicos ao longo deste percurso. Várias das formulações de Freud chegaram até o trabalho de Reich: a idéia básica do inconsciente, resistência, transferência, repressão…Na verdade, o problema era o mesmo para ambos: curar as pessoas que tivessem problemas emocionais, como fobias, compulsões, doenças psicossomáticas, histeria, etc. Reich interessou-se pelo trabalho freudiano pela ênfase que este dava ao problema sexual: Reich foi um psicanalista brilhante durante vários anos e seu trabalho Análise do Caráter é extremamente respeitado como uma contribuição importante para a teoria psicanalítica. Como se deu a passagem da intervenção terapêutica psicanalítica, essencialmente verbal, para a proposta corporal? Como analista, Reich tomou consciência que as pessoas se expressavam, nas suas atitudes corporais tanto quanto pelas palavras. Este foi o começo do trabalho corporal, a consciência da expressão do corpo. Reich observava, por exemplo, que os pacientes seguravam a respiração quando falavam de algum assunto, ou seja, na verdade eles estavam contendo emoções e sentimentos. Reich nesta fase ainda sentava atrás dos clientes. Ao passar a observar essas reações, mudou sua posição e tornou-se mais ativo no processo terapêutico. Não era mais somente um painel de projeção, ele passou a ficar mais em contato, vendo as tensões no corpo, o bloqueio na respiração, o aprisionamento dos sentimentos e idéias. Chegou a conclusão que as pessoas se expressavam em dois níveis simultaneamente: físico e psicológico. Foi aí, nesta fase que eu o encontrei. Como Reich trabalhou com você? A ênfase do seu trabalho era basicamente na respiração total, soltar a respiração e tornar o corpo completamente vivo. Se você consegue fazer isto, desenvolve um movimento chamada “reflexo do orgasmo”, que é quando a pélvis se move espontaneamente com a respiração. E quando isto acontece no ato sexual, pode-se ter um orgasmo pleno. Ele trabalhava por aí, me colocava deitado na cama respirando profunda e livremente, e ia atuando sobre as tensões, pressionando os músculos tensos…eu ia retornando ao corpo, relaxando, e aí lembranças e memórias voltavam e iam sendo analisadas. Depois de três anos de terapia, desenvolvi o reflexo do orgasmo, e foi ótimo, uma maravilha – e o fim da terapia. Este era um critério do Reich. O problema era, para mim e para qualquer um, que isto não permanecia para a vida, não se estendia para o cotidiano…Você tem o reflexo do orgasmo ali, com o terapeuta, mas não significava que com sua parceira você iria conseguir a mesma coisa. Este é um problema energético, porque com sua parceira a emoção é muito mais carregada. Uma coisa é você se abrir, soltar seus sentimentos quando seu terapeuta está te apoiando, quando não há oposição. É diferente de você se entregar, soltar os sentimentos na vida real, onde outras pessoas estão envolvidas, com suas expectativas e cobranças. Isso foi verdade também em outros pacientes de Reich. Como era Reich pessoalmente? Ele era um homem muito poderoso, com muita energia. Nas sessões você sentia sua força, seu apoio, como um pai muito forte que dizia: “Você pode ir nisso…” Para Reich, o primeiro passo no procedimento terapêutico era conseguir que o paciente respirasse mais fácil e profundamente. O segundo seria mobilizar qualquer expressão emocional que fosse mais evidente na face ou no comportamento do paciente. No meu caso pessoal, essa expressão era medo. Mas creio que ele não trabalhou tão cuidadosamente para resolver todas as minhas tensões, eu tive que, a partir da alta, continuar a fazer trabalhos comigo; continuei precisando. A partir desses trabalhos você começou a desenvolver a técnica da Bioenergética? Exatamente. A partir daí, passei a desenvolver os exercícios e técnicas da Bioenergética para trabalhar os meus problemas e também os dos meus pacientes. Meu primeiro paciente, trabalhei em 1945. Em 47, parti para a Europa para fazer meu curso de medicina. Quando voltei, cinco anos depois, tive dificuldades em me identificar com os terapeutas que circundavam Reich naquele momento. Muito, porque haviam desenvolvido uma devoção quase fanática com ele e seu trabalho era considerado heresia questionar suas afirmações ou modificar seus conceitos com base na experiência pessoal. Ficou claro para mim que esta atitude acabaria por sufocar qualquer trabalho criativo ou original. Afastei-me. Em 1953, associei-me ao Dr. John Pierrakos. Comecei com ele um trabalho terapêutico sobre mim, numa união arriscada. Foi deste trabalho conjunto sobre meu próprio corpo que a Bioenergética foi concebida. Os exercícios básicos por nós utilizados foram primeiramente testados em mim; assim fui desenvolvendo esta técnica de experimentar em meu corpo tudo que pedia a meus clientes. Com a longa experiência posterior de trabalho terapêutico, ficou claro para mim que havíamos introduzido um conceito de saúde além do da potência orgástica. Não que aquele fosse errado, mas não era suficiente o bastante. Desde que reconhecemos que o corpo é a pessoa, a saúde da pessoa tem que estar refletida no corpo – e três aspectos fundamentais do corpo mostram a saúde: um é o conceito de graciosidade nos movimentos, outro é o conceito de beleza nas formas, de harmonia, e o terceiro é a vivacidade da expressão. Reich começava o trabalho com a respiração. Como é o processo da Bioenergética? Começamos por fazer uma análise do corpo da pessoa. Não vamos fazendo logo um trabalho corporal. As pessoas chegam com seus problemas e a gente tenta ver como esses problemas estão estruturados no corpo. Para fazer esta avaliação correta é preciso muita experiência. Estar olhando para as tensões musculares para ver como elas bloqueiam o fluxo da energia, ver a expressão dos olhos, da face, da boca, ombros, respiração…como a pessoa se põe de pé, como o corpo se move, respira, etc… Todo mundo tem tensões, alguns tem mais, outros menos. É por causa da cultura. As únicas pessoas que estão livres de tensões são as dos povos primitivos. Isto reflete o quanto se está em contato ou retirado da vida natural. Realmente, o desenvolvimento industrial tirou as pessoas deste estado natural. Quanto mais a cultura for técnica, desenvolvida, mais neuroses e distúrbios emocionais.

O CORPO FALA

Criador da Bioenergética e autor de dezenas de livros considerados referenciais por terapeutas do mundo inteiro, Alexander Lowen esteve no Brasil em 1990. Na ocasião, concedeu uma longa entrevista a Ralph Vianna, psicoterapeuta corporal e um dos pioneiros na difusão do pensamento reichiano no Brasil. Vinte e quatro anos depois, os conceitos expressos por Lowen seguem vivos e válidos.

Qual a relação entre a perspectiva freudiana e a perspectiva terapêutica corporal. Em outras palavras, em que medida a Bioenergética é um tipo de psicanálise?

A tradição da Bioenergética vem de Freud e passa fundamentalmente por Wilhelm Reich, mas muitas mudanças ocorreram em vários conceitos básicos ao longo deste percurso. Várias das formulações de Freud chegaram até o trabalho de Reich: a idéia básica do inconsciente, resistência, transferência, repressão…Na verdade, o problema era o mesmo para ambos: curar as pessoas que tivessem problemas emocionais, como fobias, compulsões, doenças psicossomáticas, histeria, etc. Reich interessou-se pelo trabalho freudiano pela ênfase que este dava ao problema sexual: Reich foi um psicanalista brilhante durante vários anos e seu trabalho Análise do Caráter é extremamente respeitado como uma contribuição importante para a teoria psicanalítica.

Como se deu a passagem da intervenção terapêutica psicanalítica, essencialmente verbal, para a proposta corporal?

Como analista, Reich tomou consciência que as pessoas se expressavam, nas suas atitudes corporais tanto quanto pelas palavras. Este foi o começo do trabalho corporal, a consciência da expressão do corpo. Reich observava, por exemplo, que os pacientes seguravam a respiração quando falavam de algum assunto, ou seja, na verdade eles estavam contendo emoções e sentimentos.

Reich nesta fase ainda sentava atrás dos clientes. Ao passar a observar essas reações, mudou sua posição e tornou-se mais ativo no processo terapêutico. Não era mais somente um painel de projeção, ele passou a ficar mais em contato, vendo as tensões no corpo, o bloqueio na respiração, o aprisionamento dos sentimentos e idéias. Chegou a conclusão que as pessoas se expressavam em dois níveis simultaneamente: físico e psicológico. Foi aí, nesta fase que eu o encontrei.

Como Reich trabalhou com você?

A ênfase do seu trabalho era basicamente na respiração total, soltar a respiração e tornar o corpo completamente vivo. Se você consegue fazer isto, desenvolve um movimento chamada “reflexo do orgasmo”, que é quando a pélvis se move espontaneamente com a respiração. E quando isto acontece no ato sexual, pode-se ter um orgasmo pleno. Ele trabalhava por aí, me colocava deitado na cama respirando profunda e livremente, e ia atuando sobre as tensões, pressionando os músculos tensos…eu ia retornando ao corpo, relaxando, e aí lembranças e memórias voltavam e iam sendo analisadas. Depois de três anos de terapia, desenvolvi o reflexo do orgasmo, e foi ótimo, uma maravilha – e o fim da terapia. Este era um critério do Reich.

O problema era, para mim e para qualquer um, que isto não permanecia para a vida, não se estendia para o cotidiano…Você tem o reflexo do orgasmo ali, com o terapeuta, mas não significava que com sua parceira você iria conseguir a mesma coisa. Este é um problema energético, porque com sua parceira a emoção é muito mais carregada. Uma coisa é você se abrir, soltar seus sentimentos quando seu terapeuta está te apoiando, quando não há oposição. É diferente de você se entregar, soltar os sentimentos na vida real, onde outras pessoas estão envolvidas, com suas expectativas e cobranças. Isso foi verdade também em outros pacientes de Reich.

Como era Reich pessoalmente?

Ele era um homem muito poderoso, com muita energia. Nas sessões você sentia sua força, seu apoio, como um pai muito forte que dizia: “Você pode ir nisso…” Para Reich, o primeiro passo no procedimento terapêutico era conseguir que o paciente respirasse mais fácil e profundamente. O segundo seria mobilizar qualquer expressão emocional que fosse mais evidente na face ou no comportamento do paciente. No meu caso pessoal, essa expressão era medo. Mas creio que ele não trabalhou tão cuidadosamente para resolver todas as minhas tensões, eu tive que, a partir da alta, continuar a fazer trabalhos comigo; continuei precisando.

A partir desses trabalhos você começou a desenvolver a técnica da Bioenergética?

Exatamente. A partir daí, passei a desenvolver os exercícios e técnicas da Bioenergética para trabalhar os meus problemas e também os dos meus pacientes. Meu primeiro paciente, trabalhei em 1945. Em 47, parti para a Europa para fazer meu curso de medicina. Quando voltei, cinco anos depois, tive dificuldades em me identificar com os terapeutas que circundavam Reich naquele momento. Muito, porque haviam desenvolvido uma devoção quase fanática com ele e seu trabalho era considerado heresia questionar suas afirmações ou modificar seus conceitos com base na experiência pessoal. Ficou claro para mim que esta atitude acabaria por sufocar qualquer trabalho criativo ou original. Afastei-me.

Em 1953, associei-me ao Dr. John Pierrakos. Comecei com ele um trabalho terapêutico sobre mim, numa união arriscada. Foi deste trabalho conjunto sobre meu próprio corpo que a Bioenergética foi concebida. Os exercícios básicos por nós utilizados foram primeiramente testados em mim; assim fui desenvolvendo esta técnica de experimentar em meu corpo tudo que pedia a meus clientes.

Com a longa experiência posterior de trabalho terapêutico, ficou claro para mim que havíamos introduzido um conceito de saúde além do da potência orgástica. Não que aquele fosse errado, mas não era suficiente o bastante.

Desde que reconhecemos que o corpo é a pessoa, a saúde da pessoa tem que estar refletida no corpo – e três aspectos fundamentais do corpo mostram a saúde: um é o conceito de graciosidade nos movimentos, outro é o conceito de beleza nas formas, de harmonia, e o terceiro é a vivacidade da expressão.

Reich começava o trabalho com a respiração. Como é o processo da Bioenergética?

Começamos por fazer uma análise do corpo da pessoa. Não vamos fazendo logo um trabalho corporal. As pessoas chegam com seus problemas e a gente tenta ver como esses problemas estão estruturados no corpo. Para fazer esta avaliação correta é preciso muita experiência. Estar olhando para as tensões musculares para ver como elas bloqueiam o fluxo da energia, ver a expressão dos olhos, da face, da boca, ombros, respiração…como a pessoa se põe de pé, como o corpo se move, respira, etc…

Todo mundo tem tensões, alguns tem mais, outros menos. É por causa da cultura. As únicas pessoas que estão livres de tensões são as dos povos primitivos. Isto reflete o quanto se está em contato ou retirado da vida natural. Realmente, o desenvolvimento industrial tirou as pessoas deste estado natural. Quanto mais a cultura for técnica, desenvolvida, mais neuroses e distúrbios emocionais.

Por: shakyamuni

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