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MITOLOGIA – COMO O DESEJO CRIA O MUNDO 562indiana - Kali, a grande Mãe Obscura da tradição hindu, é também a Tecedora do Mundo. O Kalika Purana, antigo documento inspirado em suas histórias, registra um belíssimo e poderoso mito da gênese do universo – onde o controle rapidamente escapa das mãos do criador, Brahma… A leitura saborosa, oferecida por este pequeno trecho que aqui reproduzimos, […] Full view

Kali, a grande Mãe Obscura da tradição hindu, é também a Tecedora do Mundo. O Kalika Purana, antigo documento inspirado em suas histórias, registra um belíssimo e poderoso mito da gênese do universo - onde o controle rapidamente escapa das mãos do criador, Brahma... A leitura saborosa, oferecida por este pequeno trecho que aqui reproduzimos, é resultado do trabalho do alemão Heinrich Zimmer, um dos mais apaixonados estudiosos que os mitos da Índia já conheceram. O texto integra seu clássico A Conquista Psicológica do Mal, publicado no Brasil pela editora Palas Athena. Brahmao Criador, aspecto produtor do mundo, da cabeça divina, senta-se em meditação serena, trazendo das profundidades vivificadas de sua sagrada e abrangente substância o Universo e sua multiplicidade de seres. Certo número de aparições já brotara  do abismo de seu estado iogue para a esfera do tempo e do espaço - visões puras como cristal, subitamente precipitadas sob forma encarnada. Foram dispostas à sua volta em um círculo sereno, enquanto ele continuava em transe criativo. Rodeia-o o grupo de seus dez filhos nascidos-da-mente, esses sacerdotes e videntes sobrenaturais, que se transformariam, mais tarde, nos ancestrais dos santos brâmanes. Além deles, ali também estavam os "Senhores das Criaturas", dez duplicatas menores do deus, que haveriam de assisti-lo nos estágios posteriores da criação e supervisionariam os processos naturais do cosmos. Brahma, submergindo ainda mais em sua límpida obscuridade interior, atinge uma nova profundidade de súbito a mais bela mulher de pele escura brotou de sua visão, e ergueu-se desnuda aos olhos de todos. Era Aurora, radiante e vibrante de juventude. Nada que se lhe assemelhasse jamais seria vista, quer entre os homens quer nas profundezas das águas, nos palácios cravejados de pedras preciosas das rainhas e reis serpentes. As ondas de seu cabelo negro-azulado brilhavam como plumas de pavão, e seus escuros supercílios de curvas bem marcadas formavam um arco digno do Deus do Amor. De seus olhos, que eram como cálices de lótus escuros, vinha o olhar alerta e indagador de uma gazela amedrontada, sua face, redonda como a lua, assemelhava-se à púrpura florescência de lótus. Os seios intumescidos, com seus dois pontos escuros, poderiam ensandecer um santo. Esbelto como a haste de uma lança era seu corpo, suas pernas torneadas eram como trombas esticadas de elefante. A pele brilhava com pequenas e delicadas pérolas perspiração. Ao descobrir-se em meio à sua assombrada audiência, fitou a todos tomada de incerteza, caindo repentinamente numa risada suave e cascateante. E Nasce o Desejo Brahma conscientizou-se de sua presença; elevou-se, abandonando a postura de iogue, fixando nela um longo e intenso olhar. Com os olhos físicos ainda presos nela o Criador permitiu que sua visão espiritual retornasse à sua própria profundidade, onde procurou encontrar - também o fizeram os dez filhos nascidos-da-mente e os dez guardiões das idades, os "Senhores das Criaturas" - a função dessa aparição na evolução posterior do trabalho da criação, e a quem pertenceria. Eis que se deu a segunda surpresa: da indagação interior de Brahma brotou outro ser - desta vez um jovem, esplêndido, escuro e forte. Seus membros eram poderosos, muito bem formados, o tórax heroico; os grandes músculos peitorais eram como um painel de mogno, os quadris, nítidos e bem torneados; as sobrancelhas sensíveis juntavam-se sobre a ponte do nariz. Exalava um aroma de flores e assemelhava-se a um elefante instigado por veemente desejo. Em uma das mãos trazia um estandarte ornado com um peixe; na outra, um arco florido e cinco floridas flechas. Ao vê-lo, um espanto intrigado assenhoreou-se dos dez filhos nascidos-da-mente e dos dez guardiões do mundo. O desejo começou a formigar neles. Começou a movê-los o secreto e ardente anseio de possuir a mulher. Foi assim que o desejo apareceu pela primeira vez no mundo. O recém-chegado, encantador, nada intimidado, voltou seu belo rosto para Brahma, curvou-se e perguntou: "Que devo fazer? Por favor, instruí-me. Um ser somente floresce quando executa a tarefa para a qual está destinado. Dai-me um nome apropriado, um lugar para morar e, desde que sois o criador de todas as coisas, uma mulher". Contínua Criação Brahma permaneceu silencioso por algum tempo, atônito diante da sua própria criação. Que é que emanara dele? O que era isso? Recolheu e subjugou a própria consciência, levando a mente outra vez  para o centro. Dominou a surpresa. Novamente senhor de si, o Criador do mundo dirigiu-se à sua notável criatura e designou-lhe o campo de ação. "Sairás errando pela terra", disse ele, "enchendo de perplexidade homens e mulheres com teu arco e flechas floridos, assim propiciando a contínua criação do mundo. Nenhum deus nem espírito celestial, demônio ou espírito do mal, divindade-serpente ou duende da natureza, nenhum homem ou animal selvagem, criaturas do ar ou do mar, hão de ficar fora do alcance de teus dardos. Nem mesmo eu, ou Vishnu que a tudo impregna, nem mesmo Shiva, o pétreo asceta imóvel imerso em meditação. Nós três estaremos sob teu poder - para não falar de outras existências que respiram. Deverás atingir, imperceptível, o coração, e ali despertar o prazer, provocando a perpétua e renovada criação do mundo vivente. O coração há de ser o alvo de teu arco; tuas flechas levarão alegria e emoção embriagadora a todos os seres que respiram. Essa, portanto, é a tua missão: ela perpetuará o momento da criação do mundo. Recebe agora, ó Mais Elevado dos Seres, o nome que te pertence". Voltando-se para seus dez filhos nascidos-da-mente, calou-se e retomou sua postura de lótus. Os dez leram-lhe a face e compreenderam. Conheceram, foram unânimes em seu conhecimento, e falaram: "Como agitaste o espírito do Criador, deixando-o emocionado quando surgiste, serás conhecido no mundo como 'O Agitador do Espírito'; teu nome será 'O Desejo de Amor' porque tua forma acorda o desejo amoroso; serás chamado de 'O Embriagador' pois que infundes a embriaguez". Divino Poder Em seguida os "Senhores das Criaturas" designaram-lhe um lugar para morar e uma mulher. "Mais poderosos do que os dardos de Vishnu, Shiva e Brahma", recitaram, "são as flechas de teu arco florido. O céu e a terra, as profundezas do abismo e o fogo sagrado de Brahma hão de ser teu lar; tu és 'O Todo-Penetrante'. Onde quer que existam criaturas vivas, árvores ou pradarias, até mesmo no trono de Brahma que está no zênite, ali morarás. E o senhor Daksha, o 'Primeiro Senhor da Criaturas', haverá de outorgar-te a mulher que desejas". Tendo manifestado sua decisão, voltaram-se em silêncio para a face de Brahma, em inclinação respeitosa. Ao ouvir as palavras de Brahma, dos dez filhos nascidos-da-mente e dos dez guardiões, o "Desejo" - Kama, o Deus do Amor - levantou o arco florido cujo formato é o mesmo das sobrancelhas de uma mulher bela; preparou suas cinco flechas florais, que se chamam "Provocadora do Paroxismo do Desejo", "Inflamadora", "Embriagadora", "Abrasadora" e "Portadora da Morte", tornando-se logo invisível. "Aqui mesmo e sem perder um momento", pensou ele, "experimentarei, nestes sagrados personagens, e no próprio Criador, o divino poder de Brahma me atribuiu. Ei-los todos reunidos e aqui também está Aurora, essa magnífica mulher; todos, cada um deles, serão vítimas de minha arma. Não se afirmou o próprio Brahma: 'Eu, Vishnu e até mesmo Shiva cairemos em poder de tuas flechas? Por que esperar, então, por outros alvos? O que Brahma anunciou, eu cumprirei". A Flecha que Arrebata Tendo-se decidido, colocou-se na postura do arqueiro, alustou uma seta florida no arco florido e estirou-lhe a grande curva. Principiaram a soprar brisas embriagadoras, carregadas do aroma de flores primaveris, a espalhar arrebatamento. Todos os deuses, desde o Criador até o último de seus filhos nascidos-da-mente, enlouqueceram com as flechadas do perturbador. Naquele momento ocorreram mudanças de grande magnitude em seus temperamentos. Continuavam a fitar Aurora, a mulher, mas com olhos alternados e o feitiço do amor crescia neles. A beleza da moça contribuía para aumentar e precipitar-lhes a embriaguez. Arrebataram-se todos a um só tempo, os sentidos turvados pela luxúria. O fascínio foi tão forte que, quando a pura mente do Criador olhou para a filha nesse ambiente exacerbado, despertaram e manifestaram-se diretamente, à vista do mundo, suas suscetibilidades e compulsões, com todos os gestos e manifestações físicas espontâneas. Nesse interin, a mulher exibia, pela primeira vez no grande romance do Universo os sinais de sua própria agitação. Simulações de timidez se alternavam provocadoramente, sob a pálida luz do amanhecer do mundo, em evidentes esforços para estimular a admiração amorosa. Profundamente atingida pela flecha do Deus do Amor, lá estava ela, em pé, estremecendo sob os olhares que se fixavam em seu corpo com crescente desejo - ora envergonhada, escondendo o rosto com os braços, ora erguendo novamente os olhos dardejantes. O estremecimento de um tumulto emocional percorreu-a, como o ondular das ondas ao longo do curso do divino rio Ganges. Brahma, contemplando-lhe a atuação, começou a fumegar; o desejo por ela subjugou-o por completo. Os dez filhos nascidos-da-mente e os dez "Senhores das Criaturas" resolviam-se internamente. Foi assim que as emoções vieram ao mundo acompanhadas de seus gestos apropriados e sinais naturais. O Deus do Amor observou tudo e ficou satisfeito ao ver que o poder que recebera como dom era adequado à sua missão. "Posso desempenhar a tarefa que Brahma me designou", decidiu, e uma esplêndida satisfação consigo próprio tomou-lhe conta do ser.  

MITOLOGIA – COMO O DESEJO CRIA O MUNDO

Kali, a grande Mãe Obscura da tradição hindu, é também a Tecedora do Mundo. O Kalika Purana, antigo documento inspirado em suas histórias, registra um belíssimo e poderoso mito da gênese do universo – onde o controle rapidamente escapa das mãos do criador, Brahma…

A leitura saborosa, oferecida por este pequeno trecho que aqui reproduzimos, é resultado do trabalho do alemão Heinrich Zimmer, um dos mais apaixonados estudiosos que os mitos da Índia já conheceram. O texto integra seu clássico A Conquista Psicológica do Mal, publicado no Brasil pela editora Palas Athena.

Brahmao Criador, aspecto produtor do mundo, da cabeça divina, senta-se em meditação serena, trazendo das profundidades vivificadas de sua sagrada e abrangente substância o Universo e sua multiplicidade de seres. Certo número de aparições já brotara  do abismo de seu estado iogue para a esfera do tempo e do espaço – visões puras como cristal, subitamente precipitadas sob forma encarnada. Foram dispostas à sua volta em um círculo sereno, enquanto ele continuava em transe criativo. Rodeia-o o grupo de seus dez filhos nascidos-da-mente, esses sacerdotes e videntes sobrenaturais, que se transformariam, mais tarde, nos ancestrais dos santos brâmanes. Além deles, ali também estavam os “Senhores das Criaturas”, dez duplicatas menores do deus, que haveriam de assisti-lo nos estágios posteriores da criação e supervisionariam os processos naturais do cosmos. Brahma, submergindo ainda mais em sua límpida obscuridade interior, atinge uma nova profundidade de súbito a mais bela mulher de pele escura brotou de sua visão, e ergueu-se desnuda aos olhos de todos.

Era Aurora, radiante e vibrante de juventude. Nada que se lhe assemelhasse jamais seria vista, quer entre os homens quer nas profundezas das águas, nos palácios cravejados de pedras preciosas das rainhas e reis serpentes. As ondas de seu cabelo negro-azulado brilhavam como plumas de pavão, e seus escuros supercílios de curvas bem marcadas formavam um arco digno do Deus do Amor. De seus olhos, que eram como cálices de lótus escuros, vinha o olhar alerta e indagador de uma gazela amedrontada, sua face, redonda como a lua, assemelhava-se à púrpura florescência de lótus. Os seios intumescidos, com seus dois pontos escuros, poderiam ensandecer um santo. Esbelto como a haste de uma lança era seu corpo, suas pernas torneadas eram como trombas esticadas de elefante. A pele brilhava com pequenas e delicadas pérolas perspiração. Ao descobrir-se em meio à sua assombrada audiência, fitou a todos tomada de incerteza, caindo repentinamente numa risada suave e cascateante.

E Nasce o Desejo

Brahma conscientizou-se de sua presença; elevou-se, abandonando a postura de iogue, fixando nela um longo e intenso olhar. Com os olhos físicos ainda presos nela o Criador permitiu que sua visão espiritual retornasse à sua própria profundidade, onde procurou encontrar – também o fizeram os dez filhos nascidos-da-mente e os dez guardiões das idades, os “Senhores das Criaturas” – a função dessa aparição na evolução posterior do trabalho da criação, e a quem pertenceria.

Eis que se deu a segunda surpresa: da indagação interior de Brahma brotou outro ser – desta vez um jovem, esplêndido, escuro e forte. Seus membros eram poderosos, muito bem formados, o tórax heroico; os grandes músculos peitorais eram como um painel de mogno, os quadris, nítidos e bem torneados; as sobrancelhas sensíveis juntavam-se sobre a ponte do nariz. Exalava um aroma de flores e assemelhava-se a um elefante instigado por veemente desejo. Em uma das mãos trazia um estandarte ornado com um peixe; na outra, um arco florido e cinco floridas flechas. Ao vê-lo, um espanto intrigado assenhoreou-se dos dez filhos nascidos-da-mente e dos dez guardiões do mundo. O desejo começou a formigar neles. Começou a movê-los o secreto e ardente anseio de possuir a mulher. Foi assim que o desejo apareceu pela primeira vez no mundo. O recém-chegado, encantador, nada intimidado, voltou seu belo rosto para Brahma, curvou-se e perguntou: “Que devo fazer? Por favor, instruí-me. Um ser somente floresce quando executa a tarefa para a qual está destinado. Dai-me um nome apropriado, um lugar para morar e, desde que sois o criador de todas as coisas, uma mulher”.

Contínua Criação

Brahma permaneceu silencioso por algum tempo, atônito diante da sua própria criação. Que é que emanara dele? O que era isso? Recolheu e subjugou a própria consciência, levando a mente outra vez  para o centro. Dominou a surpresa. Novamente senhor de si, o Criador do mundo dirigiu-se à sua notável criatura e designou-lhe o campo de ação.

“Sairás errando pela terra”, disse ele, “enchendo de perplexidade homens e mulheres com teu arco e flechas floridos, assim propiciando a contínua criação do mundo. Nenhum deus nem espírito celestial, demônio ou espírito do mal, divindade-serpente ou duende da natureza, nenhum homem ou animal selvagem, criaturas do ar ou do mar, hão de ficar fora do alcance de teus dardos. Nem mesmo eu, ou Vishnu que a tudo impregna, nem mesmo Shiva, o pétreo asceta imóvel imerso em meditação. Nós três estaremos sob teu poder – para não falar de outras existências que respiram. Deverás atingir, imperceptível, o coração, e ali despertar o prazer, provocando a perpétua e renovada criação do mundo vivente. O coração há de ser o alvo de teu arco; tuas flechas levarão alegria e emoção embriagadora a todos os seres que respiram. Essa, portanto, é a tua missão: ela perpetuará o momento da criação do mundo. Recebe agora, ó Mais Elevado dos Seres, o nome que te pertence”.

Voltando-se para seus dez filhos nascidos-da-mente, calou-se e retomou sua postura de lótus. Os dez leram-lhe a face e compreenderam. Conheceram, foram unânimes em seu conhecimento, e falaram: “Como agitaste o espírito do Criador, deixando-o emocionado quando surgiste, serás conhecido no mundo como ‘O Agitador do Espírito’; teu nome será ‘O Desejo de Amor’ porque tua forma acorda o desejo amoroso; serás chamado de ‘O Embriagador’ pois que infundes a embriaguez”.

Divino Poder

Em seguida os “Senhores das Criaturas” designaram-lhe um lugar para morar e uma mulher. “Mais poderosos do que os dardos de Vishnu, Shiva e Brahma”, recitaram, “são as flechas de teu arco florido. O céu e a terra, as profundezas do abismo e o fogo sagrado de Brahma hão de ser teu lar; tu és ‘O Todo-Penetrante’. Onde quer que existam criaturas vivas, árvores ou pradarias, até mesmo no trono de Brahma que está no zênite, ali morarás. E o senhor Daksha, o ‘Primeiro Senhor da Criaturas’, haverá de outorgar-te a mulher que desejas”. Tendo manifestado sua decisão, voltaram-se em silêncio para a face de Brahma, em inclinação respeitosa.

Ao ouvir as palavras de Brahma, dos dez filhos nascidos-da-mente e dos dez guardiões, o “Desejo” – Kama, o Deus do Amor – levantou o arco florido cujo formato é o mesmo das sobrancelhas de uma mulher bela; preparou suas cinco flechas florais, que se chamam “Provocadora do Paroxismo do Desejo”, “Inflamadora”, “Embriagadora”, “Abrasadora” e “Portadora da Morte”, tornando-se logo invisível. “Aqui mesmo e sem perder um momento”, pensou ele, “experimentarei, nestes sagrados personagens, e no próprio Criador, o divino poder de Brahma me atribuiu. Ei-los todos reunidos e aqui também está Aurora, essa magnífica mulher; todos, cada um deles, serão vítimas de minha arma. Não se afirmou o próprio Brahma: ‘Eu, Vishnu e até mesmo Shiva cairemos em poder de tuas flechas? Por que esperar, então, por outros alvos? O que Brahma anunciou, eu cumprirei”.

A Flecha que Arrebata

Tendo-se decidido, colocou-se na postura do arqueiro, alustou uma seta florida no arco florido e estirou-lhe a grande curva. Principiaram a soprar brisas embriagadoras, carregadas do aroma de flores primaveris, a espalhar arrebatamento. Todos os deuses, desde o Criador até o último de seus filhos nascidos-da-mente, enlouqueceram com as flechadas do perturbador. Naquele momento ocorreram mudanças de grande magnitude em seus temperamentos. Continuavam a fitar Aurora, a mulher, mas com olhos alternados e o feitiço do amor crescia neles. A beleza da moça contribuía para aumentar e precipitar-lhes a embriaguez. Arrebataram-se todos a um só tempo, os sentidos turvados pela luxúria. O fascínio foi tão forte que, quando a pura mente do Criador olhou para a filha nesse ambiente exacerbado, despertaram e manifestaram-se diretamente, à vista do mundo, suas suscetibilidades e compulsões, com todos os gestos e manifestações físicas espontâneas. Nesse interin, a mulher exibia, pela primeira vez no grande romance do Universo os sinais de sua própria agitação. Simulações de timidez se alternavam provocadoramente, sob a pálida luz do amanhecer do mundo, em evidentes esforços para estimular a admiração amorosa. Profundamente atingida pela flecha do Deus do Amor, lá estava ela, em pé, estremecendo sob os olhares que se fixavam em seu corpo com crescente desejo – ora envergonhada, escondendo o rosto com os braços, ora erguendo novamente os olhos dardejantes. O estremecimento de um tumulto emocional percorreu-a, como o ondular das ondas ao longo do curso do divino rio Ganges. Brahma, contemplando-lhe a atuação, começou a fumegar; o desejo por ela subjugou-o por completo. Os dez filhos nascidos-da-mente e os dez “Senhores das Criaturas” resolviam-se internamente. Foi assim que as emoções vieram ao mundo acompanhadas de seus gestos apropriados e sinais naturais.

O Deus do Amor observou tudo e ficou satisfeito ao ver que o poder que recebera como dom era adequado à sua missão. “Posso desempenhar a tarefa que Brahma me designou”, decidiu, e uma esplêndida satisfação consigo próprio tomou-lhe conta do ser.

 

Por: shakyamuni

1 Comentários

  • Mulher

    Ivone Boechat

    Um aroma suave
    exalou das mãos do Criador,
    quando seus olhos contemplaram
    a solidão do homem no Jardim!
    Foi assim:
    o Senhor desenhou
    o ser gracioso, meigo e forte,
    que Sua imaginação perfeita produziu.
    Um novo milagre:
    fez-se carne,
    fez-se bela,
    fez-se amor,
    fez-se na verdade como Ele quer!
    O homem colheu a flor
    beijou-a, com ternura,
    chamando-a, simplesmente,
    Mulher!

    Publicado no livro Amanhecer 3ª edição Reproarte 2004 RJ

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