Revista eletrônica de divulgação holística. Artigos, crônicas e parábolas de abordagens científicas e espirituais. Um portal de acesso para o autoconhecimento, a meditação e a consciência de viver com plenitude no aqui e no agora.
ENCARANDO O DESAFIO DA CO-DEPENDÊNCIA codependency-and-sex-addiction-counseling - Os relacionamentos afetivos costumam seguir por dois caminhos – em direção ao estado de inconsciência ou ao de alerta, aponta o terapeuta norte-americano John Wellwood. Neste texto, ele explica como a segunda opção representa um profundo compromisso com o trabalho de autoconhecimento e de transformação dos padrões emocionais construídos em nossa infância. Cabe a cada casal […] Full view

Os relacionamentos afetivos costumam seguir por dois caminhos - em direção ao estado de inconsciência ou ao de alerta, aponta o terapeuta norte-americano John Wellwood. Neste texto, ele explica como a segunda opção representa um profundo compromisso com o trabalho de autoconhecimento e de transformação dos padrões emocionais construídos em nossa infância. Cabe a cada casal escolher qual caminho deve trilhar. Uma opção é tentar utilizar os relacionamentos para nos sustentar, amenizar inseguranças, ou provar que temos valor, que somos aceitáveis, dignos de ser amados - se desde o início duvidamos que somos bons em essência, esperamos que eles nos sirvam de conforto e consolo. É possível ainda tentar transformá-los em fortaleza contra a inconstância, protegendo-nos então da natureza mutável da vida. Porém, ao usá-los como fonte de conforto e segurança, os relacionamentos simplesmente estagnam, aprofundando o estado de inconsciência e reforçando padrões habituais de medo e dúvida quanto a nós mesmos. Outra opção é entender a intimidade como meio que nos torna mais plenos de vida, ajudando-nos a dar à luz à bondade e à força já existentes em nosso interior. Em vez de olhar para um determinado relacionamento como refúgio, cabe a nós acolher o poder que ele tem de nos despertar naquelas áreas onde ainda dormimos e evitamos o contato direto, sem máscaras, com a vida. Essa análise nos coloca em um caminho. Confia-nos movimento e mudança, dá-nos a direção mostrando com precisão onde o crescimento é mais necessário em nós. Adotar o relacionamento como caminho nos induz a uma prática: aprender a usar cada dificuldade que surgir durante a jornada como uma oportunidade para dar um passo a mais, contactando nossa vida com o companheiro que escolhemos e aprofundando a ligação que mantemos com ele. Por contraste, sonhar que o amor é um "sentir-se bem" fácil e infinito, ou procurar fazer permanente um estado de êxtase ou segurança, só nos prende ainda mais às velhas formas de ser, minando o real poder do amor - transformar-nos. Se pretendemos mantê-lo vivo e forte, será preciso entender nosso relacionamento como uma série de oportunidades para desenvolvermos novas consciências, descobrirmos verdades mais profundas e nos tornarmos mais completamente humanos. Padrões Condicionais A questão é que no momento em que começamos a tomar consciência de que existe uma opção, uma enorme e pesada bagagem já nos dificulta os movimentos. Estamos condicionados a modelos de reação habituais que turvam nossa percepção, distorcem nossos sentimentos e restringem nossa capacidade de nos abrirmos para a vida e  para o amor. A semente de nossa humanidade encerrou-se em uma concha muito dura. As posturas defensivas que assumimos, originalmente e modeladas para nos proteger da dor, têm se revelado um peso morto a evitar que irrompamos para o esplendor da vida. Uma vez que essas formas ultrapassadas de se fazer as coisas lutam até a morte para manter o direito de posse sobre nós, são necessários esforço e intenção para romper esses grilhões. Não temos uma palavra única para estes padrões condicionados de defesa, por isso empresto um termo das tradições orientais - carma, que significa literalmente "ação de causa e efeito". Embora a maneira como o utilizam no Oriente em geral se refira a tendência herdadas de vidas anteriores, também é possível empregar esse termo no sentido psicológico para descrever tendências condicionadas estabelecidas durante esta vida, desde a infância até o presente. Não importa de onde achamos que vem o carma, o resultado é o mesmo: anos de retraimento, anulação, negação, inconsciência e medo enredam-nos em uma teia de modelos de reações, ameaçando restringir ou podar nossa força de vida. Coração e Carma Na verdade, por baixo de todo o nosso condicionamento, a natureza básica do coração humano é uma abertura para a realidade. Nascemos curiosos, responsivos e alertas ao mundo à nossa volta. Como bem colocou Thoreau: "Seja vida ou seja morte, almejamos nada mais que a realidade" e este gosto aponta para a sanidade e salubridade básicas existentes no cerne de nossa natureza. A sensibilidade que nos é inata e o desejo de unirmo-nos à realidade são a semente da sabedoria, capaz de desenvolver-se dentro de nós. Infelizmente, a inércia acumulada do passado, à medida que se cristaliza dentro da nossa estrutura de personalidade, em geral impede que nossa "mente sábia" ou "coração sábio", mais amplos, se desenvolvam por completo. T.S. Eliot chama a atenção para esse lado do nosso ser quando escreve, contrastando com Thoreau, "o gênero humano não suporta realidade demais". Cada um de nós tem duas forças em seu interior: uma sabedoria embrionária que quer desabrochar das profundezas de nosso ser, e o jugo do nosso carma; uma abertura incondicionada que quer se ligar por inteiro à vida, e nossos modelos condicionados de personalidade que estreitam nossa percepção e por conseguinte fazem com que nos equivoquemos da vida. Do nascimento à morte,  estas duas forças vão estar em constante operação, e nossas vidas pairam no equilíbrio. Na mocidade, a energia da vida jovem em geral é mais forte que nossos padrões habituais. Ainda somos maleáveis, nossos hábitos ainda não se solidificaram totalmente e nos imaginamos capazes de vencer quaisquer obstáculos que se interponham em nosso caminho. Mesmo assim, a todo momento repetimos uma reação habitual, usamos um sistema de "encaixes" em nossa psique. Libertando-se das amarras Quando chegamos à velhice, esses encaixes estão profundamente enraizados. As pessoas idosas que não trabalharam a si mesmas tornaram-se inflexíveis, imóveis, presas aos seus próprios modos. Em algum lugar na meia-idade o peso do acúmulo cármico começa a se sobrepor a nossa força de vida. A crise que ocorre nessa época é motivada pela percepção de que o tempo está se esgotando e nosso carma está nos superando. A essa altura, é impossível sobreviver apenas da energia da juventude. A menos que orientemos nossa inteligência maior e percepção para que apoiem nossas posturas defensivas, elas se endurecerão mais, congelando-nos em rima rigidez cadavérica. Não há ênfase que seja demais nesse caso: se não fizermos nada, nosso carma nos enterrará. Os relacionamentos íntimos podem ser de grande auxílio para que nos libertemos dessas amarras cármicas, mostrando onde e como nos imobilizarmos. Continuamente fazem com que nos deparemos com coisas dentro de nós mesmos e de nosso companheiro que nos são insuportáveis. Provocam nossos piores temores e neuroses - e mostram-nos em vivido "technicolor". Quando sozinhos, em geral não conseguimos enxergar padrões de reação habituais com tanta intensidade, porque vivemos dentro deles. Por outro lado, o relacionamento intensifica a consciência de todos os nossos pontos fracos. Quando alguém a quem amamos reage aos nossos padrões neuróticos, eles nos são devolvidos e não há mais como ignorá-los com facilidade. Poder Transformador Os relacionamentos íntimos adaptam-se perfeitamente à noção de caminho porque inspiram nosso coração a se abrir, ao mesmo tempo em que ativam toda a dor e confusão de nossas amarras cármicas. Se qualquer outra pessoa que não nosso parceiro nos desafiasse a encarar nossos sentimentos, poderíamos esquivarmo-nos, não dando maior atenção ao fato. Mas estando nosso coração tão aberto para ele, é impossível fugir com a mesma facilidade! Por amarmos o parceiro e querermos estar com ele, somos obrigados a seguir em frente e confrontarmo-nos com nossos maiores temores. O amor é um poder transformador precisamente porque une os dois diferentes lados do nosso eu - o expansivo e o reprimido, o desperto e o adormecido - , promovendo um contato direto. Nosso coração se põe a trabalhar no carma que nos acompanha; áreas rígidas dentro de nós que trazemos escondidas de repente surgem a céu aberto e se suavizam no contato com o calor de um amor ardente. Também o carma começa a trabalhar em nosso coração; à medida que nos levantamos contra essas áreas difíceis do nosso próprio interior e do companheiro que escolhemos, nosso coração tem de se abrir e expandir em formas novas. Assim sendo, aprender a ser sincero, a estar presente e a ser real com um companheiro íntimo é uma oportunidade rara e muito especial que nos é apresentada - de nos aventurarmos para além das limitações que nos auto- infringimos e clamar pelo poder e saber mais amplos que nos pertencem por direito inato como seres humanos. John Welwood é terapeuta e autor do livro A Viagem do Coração (Ed. Siciliano), de onde foi extraído e adaptado este texto.

ENCARANDO O DESAFIO DA CO-DEPENDÊNCIA

Os relacionamentos afetivos costumam seguir por dois caminhos – em direção ao estado de inconsciência ou ao de alerta, aponta o terapeuta norte-americano John Wellwood. Neste texto, ele explica como a segunda opção representa um profundo compromisso com o trabalho de autoconhecimento e de transformação dos padrões emocionais construídos em nossa infância.

Cabe a cada casal escolher qual caminho deve trilhar. Uma opção é tentar utilizar os relacionamentos para nos sustentar, amenizar inseguranças, ou provar que temos valor, que somos aceitáveis, dignos de ser amados – se desde o início duvidamos que somos bons em essência, esperamos que eles nos sirvam de conforto e consolo. É possível ainda tentar transformá-los em fortaleza contra a inconstância, protegendo-nos então da natureza mutável da vida. Porém, ao usá-los como fonte de conforto e segurança, os relacionamentos simplesmente estagnam, aprofundando o estado de inconsciência e reforçando padrões habituais de medo e dúvida quanto a nós mesmos.

Outra opção é entender a intimidade como meio que nos torna mais plenos de vida, ajudando-nos a dar à luz à bondade e à força já existentes em nosso interior. Em vez de olhar para um determinado relacionamento como refúgio, cabe a nós acolher o poder que ele tem de nos despertar naquelas áreas onde ainda dormimos e evitamos o contato direto, sem máscaras, com a vida. Essa análise nos coloca em um caminho. Confia-nos movimento e mudança, dá-nos a direção mostrando com precisão onde o crescimento é mais necessário em nós. Adotar o relacionamento como caminho nos induz a uma prática: aprender a usar cada dificuldade que surgir durante a jornada como uma oportunidade para dar um passo a mais, contactando nossa vida com o companheiro que escolhemos e aprofundando a ligação que mantemos com ele.

Por contraste, sonhar que o amor é um “sentir-se bem” fácil e infinito, ou procurar fazer permanente um estado de êxtase ou segurança, só nos prende ainda mais às velhas formas de ser, minando o real poder do amor – transformar-nos. Se pretendemos mantê-lo vivo e forte, será preciso entender nosso relacionamento como uma série de oportunidades para desenvolvermos novas consciências, descobrirmos verdades mais profundas e nos tornarmos mais completamente humanos.

Padrões Condicionais

A questão é que no momento em que começamos a tomar consciência de que existe uma opção, uma enorme e pesada bagagem já nos dificulta os movimentos. Estamos condicionados a modelos de reação habituais que turvam nossa percepção, distorcem nossos sentimentos e restringem nossa capacidade de nos abrirmos para a vida e  para o amor. A semente de nossa humanidade encerrou-se em uma concha muito dura. As posturas defensivas que assumimos, originalmente e modeladas para nos proteger da dor, têm se revelado um peso morto a evitar que irrompamos para o esplendor da vida. Uma vez que essas formas ultrapassadas de se fazer as coisas lutam até a morte para manter o direito de posse sobre nós, são necessários esforço e intenção para romper esses grilhões.

Não temos uma palavra única para estes padrões condicionados de defesa, por isso empresto um termo das tradições orientais – carma, que significa literalmente “ação de causa e efeito”. Embora a maneira como o utilizam no Oriente em geral se refira a tendência herdadas de vidas anteriores, também é possível empregar esse termo no sentido psicológico para descrever tendências condicionadas estabelecidas durante esta vida, desde a infância até o presente. Não importa de onde achamos que vem o carma, o resultado é o mesmo: anos de retraimento, anulação, negação, inconsciência e medo enredam-nos em uma teia de modelos de reações, ameaçando restringir ou podar nossa força de vida.

Coração e Carma

Na verdade, por baixo de todo o nosso condicionamento, a natureza básica do coração humano é uma abertura para a realidade. Nascemos curiosos, responsivos e alertas ao mundo à nossa volta. Como bem colocou Thoreau: “Seja vida ou seja morte, almejamos nada mais que a realidade” e este gosto aponta para a sanidade e salubridade básicas existentes no cerne de nossa natureza. A sensibilidade que nos é inata e o desejo de unirmo-nos à realidade são a semente da sabedoria, capaz de desenvolver-se dentro de nós. Infelizmente, a inércia acumulada do passado, à medida que se cristaliza dentro da nossa estrutura de personalidade, em geral impede que nossa “mente sábia” ou “coração sábio”, mais amplos, se desenvolvam por completo. T.S. Eliot chama a atenção para esse lado do nosso ser quando escreve, contrastando com Thoreau, “o gênero humano não suporta realidade demais”.

Cada um de nós tem duas forças em seu interior: uma sabedoria embrionária que quer desabrochar das profundezas de nosso ser, e o jugo do nosso carma; uma abertura incondicionada que quer se ligar por inteiro à vida, e nossos modelos condicionados de personalidade que estreitam nossa percepção e por conseguinte fazem com que nos equivoquemos da vida. Do nascimento à morte,  estas duas forças vão estar em constante operação, e nossas vidas pairam no equilíbrio. Na mocidade, a energia da vida jovem em geral é mais forte que nossos padrões habituais. Ainda somos maleáveis, nossos hábitos ainda não se solidificaram totalmente e nos imaginamos capazes de vencer quaisquer obstáculos que se interponham em nosso caminho. Mesmo assim, a todo momento repetimos uma reação habitual, usamos um sistema de “encaixes” em nossa psique.

Libertando-se das amarras

Quando chegamos à velhice, esses encaixes estão profundamente enraizados. As pessoas idosas que não trabalharam a si mesmas tornaram-se inflexíveis, imóveis, presas aos seus próprios modos. Em algum lugar na meia-idade o peso do acúmulo cármico começa a se sobrepor a nossa força de vida. A crise que ocorre nessa época é motivada pela percepção de que o tempo está se esgotando e nosso carma está nos superando. A essa altura, é impossível sobreviver apenas da energia da juventude. A menos que orientemos nossa inteligência maior e percepção para que apoiem nossas posturas defensivas, elas se endurecerão mais, congelando-nos em rima rigidez cadavérica. Não há ênfase que seja demais nesse caso: se não fizermos nada, nosso carma nos enterrará.

Os relacionamentos íntimos podem ser de grande auxílio para que nos libertemos dessas amarras cármicas, mostrando onde e como nos imobilizarmos. Continuamente fazem com que nos deparemos com coisas dentro de nós mesmos e de nosso companheiro que nos são insuportáveis. Provocam nossos piores temores e neuroses – e mostram-nos em vivido “technicolor”. Quando sozinhos, em geral não conseguimos enxergar padrões de reação habituais com tanta intensidade, porque vivemos dentro deles. Por outro lado, o relacionamento intensifica a consciência de todos os nossos pontos fracos. Quando alguém a quem amamos reage aos nossos padrões neuróticos, eles nos são devolvidos e não há mais como ignorá-los com facilidade.

Poder Transformador

Os relacionamentos íntimos adaptam-se perfeitamente à noção de caminho porque inspiram nosso coração a se abrir, ao mesmo tempo em que ativam toda a dor e confusão de nossas amarras cármicas. Se qualquer outra pessoa que não nosso parceiro nos desafiasse a encarar nossos sentimentos, poderíamos esquivarmo-nos, não dando maior atenção ao fato. Mas estando nosso coração tão aberto para ele, é impossível fugir com a mesma facilidade! Por amarmos o parceiro e querermos estar com ele, somos obrigados a seguir em frente e confrontarmo-nos com nossos maiores temores.

O amor é um poder transformador precisamente porque une os dois diferentes lados do nosso eu – o expansivo e o reprimido, o desperto e o adormecido – , promovendo um contato direto. Nosso coração se põe a trabalhar no carma que nos acompanha; áreas rígidas dentro de nós que trazemos escondidas de repente surgem a céu aberto e se suavizam no contato com o calor de um amor ardente. Também o carma começa a trabalhar em nosso coração; à medida que nos levantamos contra essas áreas difíceis do nosso próprio interior e do companheiro que escolhemos, nosso coração tem de se abrir e expandir em formas novas. Assim sendo, aprender a ser sincero, a estar presente e a ser real com um companheiro íntimo é uma oportunidade rara e muito especial que nos é apresentada – de nos aventurarmos para além das limitações que nos auto- infringimos e clamar pelo poder e saber mais amplos que nos pertencem por direito inato como seres humanos.

John Welwood é terapeuta e autor do livro A Viagem do Coração (Ed. Siciliano), de onde foi extraído e adaptado este texto.

Por: shakyamuni

Deixe um comentário