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AUSÊNCIA DE EU, IDENTIDADE E INTERDEPENDÊNCIA Monges budistas(1) - Uma das perguntas mais comuns sobre os ensinamentos do Buda, até hoje repetida em salas de meditação e fóruns pela internet, é como o budismo coadunaria as ideias de reencarnação e inexistência de um eu. Essa pergunta já ocorre num texto budista de 100 anos AC, o Milinda Panha. Alí, a resposta, um tanto críptica […] Full view

Uma das perguntas mais comuns sobre os ensinamentos do Buda, até hoje repetida em salas de meditação e fóruns pela internet, é como o budismo coadunaria as ideias de reencarnação e inexistência de um eu. Essa pergunta já ocorre num texto budista de 100 anos AC, o Milinda Panha. Alí, a resposta, um tanto críptica para quem esperaria algo mais direto, vem através de uma analogia:

Ao acender uma sequência de velas, você usa a chama de uma para acender a próxima. Assim a vida/chama subsequente seria tanto a mesma, em certo sentido, quanto diferente.

Porém é preciso esclarecer que o papel da reencarnação no budismo é geralmente muito pouco compreendido em suas particularidades (como diferente do kardecismo ou do hinduísmo, ou do platonismo, por exemplo). Em muitos casos a palavra “renascimento” é vista como francamente preferível. Mas o âmbito psicológico da crença numa continuidade da existência, sob uma ou outra forma, serve não meramente para sustentar questões em certo nível de moralidade prescritiva (você vai sofrer ou ser feliz mais adiante, e nem todos os resultados de suas ações vão ser experimentados nessa vida), mas para principalmente levantar um descontentamento com todas esses bilhões de vidas cansativas e sem sentido, cheias de um ou outro tipo de incomodação, por mais aparentemente perfeitas que num caso ou outro sejam. Esse descontentamento radical é o que produz também, curiosamente, um forte sentido de urgência com relação as possibilidades atuais do praticante – ao contrário do que se poderia pensar, não se tem todo tempo do mundo para deixar as coisas, principalmente a prática, para depois.

Um ponto importante que vem como consequência dessa visão é que o próximo nascimento, ou a próxima sequência de ensinamentos é totalmente indeterminado. Podemos fazer tudo “certinho” nessa vida, mas não sabemos o que já fizemos ao longo de tantas vidas e que pode vir a se manifestar como consequências agora ou logo depois. Então nosso controle sobre as vidas futuras é improvável, enquanto não conhecermos e purificarmos todas as nossas ações em bilhões de vidas anteriores. O outro ponto radicalmente importante é que o que passa de uma vida para outra são justamente estas ações passadas, que ajudam a sustentar o hábito da crença num eu. Em outras palavras, é justamente o inverso do que poderíamos pensar: não é um eu que persiste inviolável e feliz em sua continuidade imperturbável, e sim uma confusão que se reconstrói com base nessas consequências um tanto indeterminadas, incontroláveis.

O Caminho do Meio vai, assim, além da discussão sobre se os constituintes (hábitos, ações e consequências, preferências, percepções), que são vistos como vazio, seriam ou não o eu. Ele usa essa expressão “os constituintes são uma base de designação para o eu” – isto é, o que está ali não é o eu, mas é algo a que convencionalmente imputamos o nome ou o pronome.

A mesma tábua, se você a usa para apoiar comida, você chama de mesa, e se a usa para fechar uma abertura, chama de porta. A tábua é uma porta?

Nós diríamos “enquanto ela exerce a função de porta nós a chamamos de porta”. Daí vem também a resposta para uma segunda pergunta, quase tão comum quanto a respondida no Milinda Panha, que segue mais ou menos no seguinte sentido:

“se não há eu, como pode haver carma? Como alguém pode ser responsável/responsabilizado por suas ações?”

As ações, e os hábitos, assim por diante, constroem bases de designação. Essas bases estão em constante transformação (dentro de uma mesma vida, e de uma vida para a outra), mas o que consideramos eu e chamamos de eu é a reificação de nossa designação de determinada base – nada mais do que isso. Nunca existiu como uma entidade separada, completa, estável, porém depois que damos nome e projetamos confusão e apego sobre esse nome, aí nós temos essa crença no eu que, segundo o budismo, é uma das fundações, ou a principal fundação, da insatisfatoriedade e do sofrimento.

Padma Dorje

Fonte e artigo completo: https://tzal.org/ausencia-de-eu-identidade-e-interdependencia/

AUSÊNCIA DE EU, IDENTIDADE E INTERDEPENDÊNCIA

Uma das perguntas mais comuns sobre os ensinamentos do Buda, até hoje repetida em salas de meditação e fóruns pela internet, é como o budismo coadunaria as ideias de reencarnação e inexistência de um eu. Essa pergunta já ocorre num texto budista de 100 anos AC, o Milinda Panha. Alí, a resposta, um tanto críptica para quem esperaria algo mais direto, vem através de uma analogia:

Ao acender uma sequência de velas, você usa a chama de uma para acender a próxima. Assim a vida/chama subsequente seria tanto a mesma, em certo sentido, quanto diferente.

Porém é preciso esclarecer que o papel da reencarnação no budismo é geralmente muito pouco compreendido em suas particularidades (como diferente do kardecismo ou do hinduísmo, ou do platonismo, por exemplo). Em muitos casos a palavra “renascimento” é vista como francamente preferível. Mas o âmbito psicológico da crença numa continuidade da existência, sob uma ou outra forma, serve não meramente para sustentar questões em certo nível de moralidade prescritiva (você vai sofrer ou ser feliz mais adiante, e nem todos os resultados de suas ações vão ser experimentados nessa vida), mas para principalmente levantar um descontentamento com todas esses bilhões de vidas cansativas e sem sentido, cheias de um ou outro tipo de incomodação, por mais aparentemente perfeitas que num caso ou outro sejam. Esse descontentamento radical é o que produz também, curiosamente, um forte sentido de urgência com relação as possibilidades atuais do praticante – ao contrário do que se poderia pensar, não se tem todo tempo do mundo para deixar as coisas, principalmente a prática, para depois.

Um ponto importante que vem como consequência dessa visão é que o próximo nascimento, ou a próxima sequência de ensinamentos é totalmente indeterminado. Podemos fazer tudo “certinho” nessa vida, mas não sabemos o que já fizemos ao longo de tantas vidas e que pode vir a se manifestar como consequências agora ou logo depois. Então nosso controle sobre as vidas futuras é improvável, enquanto não conhecermos e purificarmos todas as nossas ações em bilhões de vidas anteriores. O outro ponto radicalmente importante é que o que passa de uma vida para outra são justamente estas ações passadas, que ajudam a sustentar o hábito da crença num eu. Em outras palavras, é justamente o inverso do que poderíamos pensar: não é um eu que persiste inviolável e feliz em sua continuidade imperturbável, e sim uma confusão que se reconstrói com base nessas consequências um tanto indeterminadas, incontroláveis.

O Caminho do Meio vai, assim, além da discussão sobre se os constituintes (hábitos, ações e consequências, preferências, percepções), que são vistos como vazio, seriam ou não o eu. Ele usa essa expressão “os constituintes são uma base de designação para o eu” – isto é, o que está ali não é o eu, mas é algo a que convencionalmente imputamos o nome ou o pronome.

A mesma tábua, se você a usa para apoiar comida, você chama de mesa, e se a usa para fechar uma abertura, chama de porta. A tábua é uma porta?

Nós diríamos “enquanto ela exerce a função de porta nós a chamamos de porta”. Daí vem também a resposta para uma segunda pergunta, quase tão comum quanto a respondida no Milinda Panha, que segue mais ou menos no seguinte sentido:

“se não há eu, como pode haver carma? Como alguém pode ser responsável/responsabilizado por suas ações?”

As ações, e os hábitos, assim por diante, constroem bases de designação. Essas bases estão em constante transformação (dentro de uma mesma vida, e de uma vida para a outra), mas o que consideramos eu e chamamos de eu é a reificação de nossa designação de determinada base – nada mais do que isso. Nunca existiu como uma entidade separada, completa, estável, porém depois que damos nome e projetamos confusão e apego sobre esse nome, aí nós temos essa crença no eu que, segundo o budismo, é uma das fundações, ou a principal fundação, da insatisfatoriedade e do sofrimento.

Padma Dorje

Fonte e artigo completo: https://tzal.org/ausencia-de-eu-identidade-e-interdependencia/

Por: shakyamuni

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