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AH, SEMPRE O EGO! ego1 - O bode expiatório da espiritualidade é o ego. Já que não há mesmo ninguém para culparmos por tudo que acontece em nossas vidas, fabricamos esta ideia chamada ego para levar a culpa. Isso provoca muita confusão, pois o ego na verdade não existe. Ele é simplesmente uma ideia, o rótulo de um movimento ao qual […] Full view

O bode expiatório da espiritualidade é o ego. Já que não há mesmo ninguém para culparmos por tudo que acontece em nossas vidas, fabricamos esta ideia chamada ego para levar a culpa. Isso provoca muita confusão, pois o ego na verdade não existe. Ele é simplesmente uma ideia, o rótulo de um movimento ao qual apegamos o nosso sentido de eu. Quando consideramos que o ego é apenas uma ideia que não existe realmente, podemos ver que muita gente espiritualizada o culpa injustamente por todas as coisas das quais acreditamos que devemos nos livrar. As pessoas entendem equivocadamente que algo que surge dentro delas ­ -- seja um pensamento, sentimento, predisposição ou um momento de sofrimento – é uma prova do ego, e acham que só porque aquilo surgiu, o ego existe. Acham que têm um ego, porque todas essas coisas apontam para ele. Só o que sempre encontramos é essa prova ou evidência da existência do ego, mas nunca conseguimos encontrar a própria coisa em si. Quando peço a alguém para procurar o ego, a pessoa realmente não consegue encontrá-lo. Ele não está lá. Um pensamento ou emoção de raiva desencadeia a crença: "Ah, tenho que me livrar disto -- isto é o meu ego". É como se tudo que acontece ao ser humano, especialmente a um ser humano interessado em se espiritualizar, se acostumasse como prova da existência de um ego que precisa ser aniquilado. E, todavia, ninguém consegue encontrá-lo. Ainda vou ter que pedir a alguém que me mostre o ego. Já vi muitos pensamentos, emoções e sentimentos. Já observei expressões de raiva, alegria, depressão e êxtase, mas ainda vou ter que pedir a alguém que me apresente o ego. Muitas pessoas me apresentam a convicção de que, como existem todas essas coisas, deve haver em si mesmas alguém ou alguma coisa, um bode expiatório, para culpar. Esse é o entendimento comum em relação ao ego. Mas isso não é ego. As coisas às vezes são tão simples quanto parecem. Às vezes um pensamento é só um pensamento, um sentimento é só um sentimento, e uma ação é apenas uma ação, sem ego em si. Ora, o ego que existe, se é que sequer existe um ego, é o pensamento de que existe o ego. Mas não há uma evidência sequer da existência desse ego. Tudo simplesmente está surgindo espontaneamente e, se houver acaso um ego, ele será especificamente este movimento da mente que diz: "É meu". Ora, geralmente este pensamento "É meu" segue o surgimento de um pensamento ou emoção. Poderia ser "Estou confuso" – isso é meu" ou "Sinto inveja – isso é meu", ou em resposta a qualquer outra experiência que estiver surgindo: "Isso me pertence". Pensa-se que o ego estivesse presente e tivesse causado esse pensamento, sentimento ou confusão. Porém, sempre que imediatamente retrocedemos para encontrar o ego, descobrimos que ele não estava lá antes do pensamento, mas viera em seguida. É uma interpretação de um fato, ou de um dado pensamento ou emoção. É a suposição pós-factual de que "é meu". O ego também é a interpretação pós-factual que diz: "Isso não é meu", a rejeição de um pensamento ou sentimento. É fácil entender que tal posição implica que haja alguém ali a quem aquilo não pertence. Esse é o mundo da dualidade. É o meu pensamento, a minha confusão ou o que quer que seja, ou não é o meu pensamento, não é a minha confusão, não é meu. Tanto uma como a outra são movimentos ou interpretações do que é. O ego é apenas esta interpretação, este movimento da mente, e é por isso que ninguém pode encontrá-lo. Ele é como um fantasma. É apenas um movimento mental particularmente condicionado. Desde tenra infância, recebemos mensagens como "Você é bonito", "Você é inteligente", "Você tirou nota boa, portanto você é bom", "Você não tirou nota boa, portanto você não é bom". Logo a criança começa a acreditar nisso, a sentir assim, a apropriar-se dessa essência emocional como "eu". Da mesma forma, alguém pode ter um pensamento e imediatamente começar a sentir esse pensamento. Se a pessoa pensar num alegre dia de sol, logo seu corpo começará a entrar em sintonia com isso, sentindo algo que não existe. Portanto, é claro, isso fica um tanto mais difícil quando se diz a alguém para livrar-se do ego, pois quem é que vai se livrar do ego? O que é que tenta livrar-se do ego? É assim que ele se mantém, achando que tem que fazer alguma coisa consigo mesmo. O ego é um movimento. É um verbo. Não é algo estático. É o movimento mental pós-factual que está sempre se tornando. Em outras palavras, os egos estão sempre no caminho. Estão no caminho psicológico, no caminho espiritual, no caminho de ganhar mais dinheiro ou um carro melhor. O sentido de "eu" está sempre se tornando, sempre se movendo, sempre obtendo. Ou então está fazendo o contrário – retirando-se, rejeitando, negando. Assim, a fim de que esse verbo siga andando, tem que haver movimento. Temos que estar avançando ou recuando, aproximando-nos ou afastando-nos. Temos que ter alguém para culparmos, e geralmente a nós mesmos. Temos que estar chegando a algum lugar, pois, senão, não estaremos nos tornando. Portanto, o verbo – vamos chamá-lo de "egoar" – não estará funcionando, se não estivermos nos tornando. Tão logo o verbo pára, já não é mais um verbo. Tão logo você pare de correr, não há mais algo que se chame correr – foi-se; nada está acontecendo. Este sentido de ego tem que estar em movimento, porque, assim que ele pára, desaparece, tal como quando seus pés param, desaparece o correr. Quando realmente admitimos e começamos a entender que não há um ego, somente "egoar", daí começamos a ver o ego pelo que ele realmente é. Isso produz uma parada natural da perseguição ou evitação de alguma coisa. Esta parada precisa acontecer de uma forma suave e muito natural, porque, se estivermos tentando parar, então isso novamente será movimento. Enquanto tentamos fazer o que achamos ser a coisa espiritual certa para nos livrar do ego, nós o perpetuamos. O fato de percebermos que isso é mais um pouco do mesmo "egoar" nos permitirá parar sem tentarmos. Você poderia topar com cem carvalhos e cada um teria uma personalidade, mas nenhum ego. Portanto, a cessação desse verbo chamado ego nada tem a ver com a cessação da personalidade. Não tem a ver com nada para o qual pudéssemos apontar com o dedo: nem para o pensamento, nem para o sentimento, nem para o ego. Se tivéssemos que parar, ou o mundo tivesse que parar a fim de sermos livres, estaríamos metidos numa grande enrascada. É o movimento de tornar-se, o movimento em direção a alguma coisa ou de afastamento de alguma coisa, que pára. Começa a abrir-se uma diferente dimensão do ser quando se permite que este verbo ego se esgote. Só pela observação, podemos começar a ver que nada que surge tem uma natureza egóica ou de "eu". Um pensamento que surge é só um pensamento que surge. Se surge um sentimento, ele não tem um "eu" ou uma natureza egóica. Se surge confusão, não há um "eu" ou natureza egóica no surgimento. Só por observarmos, percebemos que tudo surge espontaneamente, e nada tem em si um "eu" ou uma natureza egóica. A natureza egóica só aparece numa reflexão posterior. Tão logo se dê crédito a essa reflexão posterior, então teremos o acontecimento de uma visão de um mudo inteiro: "Eu estou com raiva; estou confuso; estou ansioso; estou tão feliz; estou deprimido; não sou iluminado" ou, pior ainda, "Eu sou iluminado". De repente esta crença no pensamento-eu dá cor a tudo que vemos, tudo que fazemos e a cada experiência que acontece. As pessoas acham que a espiritualidade é um estado alterado, mas essa ilusão é o estado alterado. A espiritualidade trata de despertar, não de estados. Uma vez o meu mestre me disse: "Se espera que a mente pare, você vai esperar para sempre". De repente tive que refletir sobre a minha possibilidade de iluminação. Eu vinha tentando parar a minha mente havia muito tempo e eu sabia que tinha que encontrar uma outra via de acesso. A instrução espiritual de "apenas parar" não se dirige à mente, aos sentimentos ou à personalidade. Dirige-se à reflexão ou pensamento posterior que assume o crédito e a culpa e diz: "Isso é meu". Pare! Esse é o alvo do ensinamento de parar. Apenas pare com isso. E daí, nesse momento, sinta como esse sentido de "eu" se sente tão completamente desarmado. Quando se desarma o sentido de "eu", ele não sabe o que fazer, se ir para frente ou para trás, para direita ou para esquerda. Eis o tipo de parar que é importante. O resto é só um jogo. Então, nesse parar, começa a emergir um diferente estado de ser, um estado indiviso. Por quê? Porque não estamos mais em conflito com nós mesmos. A mente ouve estas palavras e pergunta: "O que é um estado de ser indiviso?" Isso também é perder o que está acontecendo agora mesmo. A gente sente um estado indiviso de ser; ele não pode ser encontrado nalgum espaço abstrato ou conceitual, porque o próprio espaço é um estado dividido. Tocamos o estado indiviso quando nos permitimos estar desarmados, quando não estamos tentando provar ou negar nada e ficamos naquele estado de ser desarmado sem resistência. Surge um estado de literalmente estarmos no corpo e além do corpo, e o corpo já não está mais em guerra consigo mesmo. A mente pode ou não estar tendo pensamentos, mas esses pensamentos não estão em guerra entre si. Torne-se curioso sobre a verdadeira natureza de si mesmo, sobre quem você realmente é, porque essa curiosidade o abre para o estado indiviso. A partir do estado indiviso, uma das primeiras coisas que se percebe é que você não sabe quem você é. Antes disso, quando você sabia quem você era, você era dividido – interminavelmente. A partir daqui, onde não há divisão, não há o pesado, restrito e confinado sentido de si. Você se torna um mistério. A divisão facilita que se encontre um sentido de si. Se estivermos com raiva, por exemplo, é aí que ele está. Mas, quando há somente raiva e não há identificação com a raiva, até a própria raiva de repente se desdobra. E então o que eu sou? Não sou a "minha" raiva, se não sou aquele que está dividido – o que sou eu? Permita que o mistério de ser se desdobre de uma maneira vivencial. Comece ao nível do ser mais do que do pensar. À medida que se desdobra o mistério, vamos ficando cada vez mais radiantes por sermos apenas esta consciência presente. E daí o sentido de identidade começa a deixar de se definir através da divisão e conflito internos. A mente descobre que não há um gancho para pendurar a identidade, de modo que a identidade começa a desestruturar-se em abertura. Misteriosa e paradoxalmente, quanto mais se desestrutura a identidade, mais vivos e presentes nos sentimos. O sentido de si é como se fosse açúcar a dissolver-se na água até que parece não haver mais um eu e todavia ainda existimos. É possível que Buda dissesse: "Dissolvido todo o açúcar, não há eu". Ramana Maharshi poderia dizer: "Dissolvido o açúcar na água, água e açúcar são a mesma coisa – há somente o Eu". A máxima liberdade do ego inexistente é vermos que na verdade ele é irrelevante. Enquanto for percebido como relevante, ele continua a "tornar-se". Todas as boas intenções do mundo simplesmente o abastecem. "Estou me livrando de mim mesmo cada vez mais a cada dia e um dia estarei completamente livre de mim mesmo e absolutamente não terei ego". Como isso soa para você? É ego. Mas, quando num momento de discernimento se vê que o eu é irrelevante, termina o jogo.É como alguém que está jogando banco imobiliário e acha que sua vida depende de ganhar o jogo, quando de repente a pessoa se dá conta de que é irrelevante – não importa. Pode até continuar jogando. Pode ir buscar um sanduíche. Esta vida não trata de vencer o jogo espiritual; trata de acordar do jogo. Há ainda em nós esta outra parte chamada "condicionamento", que não é ego. Condicionamento é condicionamento; não é condicionamento egóico. Condicionamento é como se instalássemos um programa no computador mental. Quando se instala o programa, isso não significa que o computador tenha um ego. Simplesmente foi condicionado temporariamente. Na idade em que nos tornamos adultos, o corpo-mente já está completamente condicionado. Por esse condicionamento tem-se culpado o ego, mas o condicionamento não vem do ego. O ego é o pensamento que surge em seguida na esteira do condicionamento, que é onde acontece toda a violência real. Quando se percebe que o condicionamento é como uma programação fornecida pela codificação genética, pela sociedade, pelos pais, professores, gurus, etc. (a mente também começa a condicionar-se a si mesma, mas essa é outra história), começamos então a reconhecer que o condicionamento não tem nenhum eu, que não há a quem culparmos. É inútil culparmos a nós mesmos, ou outra pessoa, mais do que culparíamos nosso computador quando colocamos nele um disco. Olhe no presente momento para ver qual condicionamento está aí e ver-se-á que não há culpa alguma nele. Ele faz parte da existência. Sem condicionamento ou programação em nossos corpos, pararíamos de respirar, o cérebro tornar-se-ia uma conversa mole, sem inteligência – o que também é condicionamento. O que mantém o condicionamento firmemente ancorado dentro de nós é que o interpretamos como "meu". Então, é claro, há culpa própria e alheia e tentamos nos livrar do condicionamento, porque cremos que "eu o criei", "eu não o criei" ou "não consigo me livrar dele", e a mente não gosta disso. A mente se ilude em pensar que pode livrar-se desse condicionamento, mas, quando a verdade se instala, começamos a ficar cada vez menos divididos. Quando surge o condicionamento, se não é reivindicado como "meu", ele surge dentro de um estado indiviso. Este também poderia chamar-se de estado de ser não condicionado. Quando o condicionamento depara com um estado indiviso, há uma transformação alquímica. Há um milagre sagrado. Quando algo surge, pode-se ter a experiência de que "isto sou eu" ou de que "estou eu aqui de volta" – isto não sou eu". Ambos são movimentos da mente, ou pensamento posterior, mais conhecido como ego. Mas quando ocorre o estado indiviso, podem acontecer duas coisas. A primeira pode ser um despertar para a nossa verdadeira natureza, que é este estado não dividido, este ser indiviso. A segunda coisa que pode acontecer é que o condicionamento, a confusão que inocentemente foi transmitida pela ignorância, pode reunificar-se. Quando surge o condicionamento dentro de uma pessoa que está num estado indiviso, onde ela nem se apropria dele nem o nega, então pode haver um processo alquímico sagrado através do qual o condicionamento se reunifica totalmente por si. Como a lama na água, o condicionamento naturalmente apenas sedimenta no fundo. É como um milagre natural. Isso pode ser muito delicado, pois, se houver a mínima apropriação ou a mínima negação de apropriação, esse processo de certa forma se corrompe. Ele requer de nós uma suavidade e abertura interiores, porque este sentido indiviso é muito suave e não podemos procurá-lo como um martelo à procura de um prego. É por essa razão que os ensinamentos espirituais ressaltam a humildade, a qual nos ajuda a entrar na verdade de nosso ser de uma maneira suave e humilde. Não podemos forçar os portões do céu. Ao invés, devemos nos permitir ficar cada vez mais desarmados. Então a pura consciência de ser fica cada vez mais radiante e percebemos quem somos. Essa radiância é o que somos. Quando fica muito claro, vemos que somos esta claridade, esta luminescência, e então começamos a perceber por nossa própria experiência o que significa este nascimento humano. Esta claridade volta para si mesma, para cada tantinho de confusão, para cada tantinho de sofrimento. Para tudo de que o eu procurava se afastar, retornará o Eu sagrado. Este Eu radiante começa a descobrir sua verdadeira natureza e quer libertar-se de si, desfrutar de si e verdadeira amar-se em todos os seus sabores e aromas. O verdadeiramente sagrado é o amor ao que é, não o amor ao que seria. Este amor liberta o que é. O verdadeiro coração de todos os seres humanos é o amante do que é. É por isso que não podemos fugir de nenhuma parte de nós mesmos. Não porque sejamos um desastre, mas porque somos conscientes e estamos retornando para tudo de nós mesmos neste nascimento. Não importa quão confusos estejamos, retornaremos para cada parte de nós mesmos que foi deixada fora do jogo. Este é o nascimento de verdadeira compaixão e amor. Há muito tempo dizem as tradições espirituais que você tem que eliminar tanta coisa para alcançar o amor. Mas isso é um mito. A verdade é que é o amor que realmente liberta. Adyashanti (tradução de Darshano)

AH, SEMPRE O EGO!

O bode expiatório da espiritualidade é o ego. Já que não há mesmo ninguém para culparmos por tudo que acontece em nossas vidas, fabricamos esta ideia chamada ego para levar a culpa. Isso provoca muita confusão, pois o ego na verdade não existe. Ele é simplesmente uma ideia, o rótulo de um movimento ao qual apegamos o nosso sentido de eu.

Quando consideramos que o ego é apenas uma ideia que não existe realmente, podemos ver que muita gente espiritualizada o culpa injustamente por todas as coisas das quais acreditamos que devemos nos livrar. As pessoas entendem equivocadamente que algo que surge dentro delas ­ — seja um pensamento, sentimento, predisposição ou um momento de sofrimento – é uma prova do ego, e acham que só porque aquilo surgiu, o ego existe. Acham que têm um ego, porque todas essas coisas apontam para ele. Só o que sempre encontramos é essa prova ou evidência da existência do ego, mas nunca conseguimos encontrar a própria coisa em si.

Quando peço a alguém para procurar o ego, a pessoa realmente não consegue encontrá-lo. Ele não está lá. Um pensamento ou emoção de raiva desencadeia a crença: “Ah, tenho que me livrar disto — isto é o meu ego”. É como se tudo que acontece ao ser humano, especialmente a um ser humano interessado em se espiritualizar, se acostumasse como prova da existência de um ego que precisa ser aniquilado. E, todavia, ninguém consegue encontrá-lo. Ainda vou ter que pedir a alguém que me mostre o ego. Já vi muitos pensamentos, emoções e sentimentos. Já observei expressões de raiva, alegria, depressão e êxtase, mas ainda vou ter que pedir a alguém que me apresente o ego.

Muitas pessoas me apresentam a convicção de que, como existem todas essas coisas, deve haver em si mesmas alguém ou alguma coisa, um bode expiatório, para culpar. Esse é o entendimento comum em relação ao ego. Mas isso não é ego. As coisas às vezes são tão simples quanto parecem. Às vezes um pensamento é só um pensamento, um sentimento é só um sentimento, e uma ação é apenas uma ação, sem ego em si. Ora, o ego que existe, se é que sequer existe um ego, é o pensamento de que existe o ego. Mas não há uma evidência sequer da existência desse ego. Tudo simplesmente está surgindo espontaneamente e, se houver acaso um ego, ele será especificamente este movimento da mente que diz: “É meu”.

Ora, geralmente este pensamento “É meu” segue o surgimento de um pensamento ou emoção. Poderia ser “Estou confuso” – isso é meu” ou “Sinto inveja – isso é meu”, ou em resposta a qualquer outra experiência que estiver surgindo: “Isso me pertence”. Pensa-se que o ego estivesse presente e tivesse causado esse pensamento, sentimento ou confusão. Porém, sempre que imediatamente retrocedemos para encontrar o ego, descobrimos que ele não estava lá antes do pensamento, mas viera em seguida. É uma interpretação de um fato, ou de um dado pensamento ou emoção. É a suposição pós-factual de que “é meu”. O ego também é a interpretação pós-factual que diz: “Isso não é meu”, a rejeição de um pensamento ou sentimento. É fácil entender que tal posição implica que haja alguém ali a quem aquilo não pertence. Esse é o mundo da dualidade. É o meu pensamento, a minha confusão ou o que quer que seja, ou não é o meu pensamento, não é a minha confusão, não é meu. Tanto uma como a outra são movimentos ou interpretações do que é. O ego é apenas esta interpretação, este movimento da mente, e é por isso que ninguém pode encontrá-lo. Ele é como um fantasma. É apenas um movimento mental particularmente condicionado.

Desde tenra infância, recebemos mensagens como “Você é bonito”, “Você é inteligente”, “Você tirou nota boa, portanto você é bom”, “Você não tirou nota boa, portanto você não é bom”. Logo a criança começa a acreditar nisso, a sentir assim, a apropriar-se dessa essência emocional como “eu”. Da mesma forma, alguém pode ter um pensamento e imediatamente começar a sentir esse pensamento. Se a pessoa pensar num alegre dia de sol, logo seu corpo começará a entrar em sintonia com isso, sentindo algo que não existe. Portanto, é claro, isso fica um tanto mais difícil quando se diz a alguém para livrar-se do ego, pois quem é que vai se livrar do ego? O que é que tenta livrar-se do ego? É assim que ele se mantém, achando que tem que fazer alguma coisa consigo mesmo.

O ego é um movimento. É um verbo. Não é algo estático. É o movimento mental pós-factual que está sempre se tornando. Em outras palavras, os egos estão sempre no caminho. Estão no caminho psicológico, no caminho espiritual, no caminho de ganhar mais dinheiro ou um carro melhor. O sentido de “eu” está sempre se tornando, sempre se movendo, sempre obtendo. Ou então está fazendo o contrário – retirando-se, rejeitando, negando. Assim, a fim de que esse verbo siga andando, tem que haver movimento. Temos que estar avançando ou recuando, aproximando-nos ou afastando-nos. Temos que ter alguém para culparmos, e geralmente a nós mesmos. Temos que estar chegando a algum lugar, pois, senão, não estaremos nos tornando. Portanto, o verbo – vamos chamá-lo de “egoar” – não estará funcionando, se não estivermos nos tornando. Tão logo o verbo pára, já não é mais um verbo. Tão logo você pare de correr, não há mais algo que se chame correr – foi-se; nada está acontecendo. Este sentido de ego tem que estar em movimento, porque, assim que ele pára, desaparece, tal como quando seus pés param, desaparece o correr. Quando realmente admitimos e começamos a entender que não há um ego, somente “egoar”, daí começamos a ver o ego pelo que ele realmente é. Isso produz uma parada natural da perseguição ou evitação de alguma coisa. Esta parada precisa acontecer de uma forma suave e muito natural, porque, se estivermos tentando parar, então isso novamente será movimento. Enquanto tentamos fazer o que achamos ser a coisa espiritual certa para nos livrar do ego, nós o perpetuamos. O fato de percebermos que isso é mais um pouco do mesmo “egoar” nos permitirá parar sem tentarmos.

Você poderia topar com cem carvalhos e cada um teria uma personalidade, mas nenhum ego. Portanto, a cessação desse verbo chamado ego nada tem a ver com a cessação da personalidade. Não tem a ver com nada para o qual pudéssemos apontar com o dedo: nem para o pensamento, nem para o sentimento, nem para o ego. Se tivéssemos que parar, ou o mundo tivesse que parar a fim de sermos livres, estaríamos metidos numa grande enrascada. É o movimento de tornar-se, o movimento em direção a alguma coisa ou de afastamento de alguma coisa, que pára.

Começa a abrir-se uma diferente dimensão do ser quando se permite que este verbo ego se esgote. Só pela observação, podemos começar a ver que nada que surge tem uma natureza egóica ou de “eu”. Um pensamento que surge é só um pensamento que surge. Se surge um sentimento, ele não tem um “eu” ou uma natureza egóica. Se surge confusão, não há um “eu” ou natureza egóica no surgimento. Só por observarmos, percebemos que tudo surge espontaneamente, e nada tem em si um “eu” ou uma natureza egóica. A natureza egóica só aparece numa reflexão posterior.

Tão logo se dê crédito a essa reflexão posterior, então teremos o acontecimento de uma visão de um mudo inteiro: “Eu estou com raiva; estou confuso; estou ansioso; estou tão feliz; estou deprimido; não sou iluminado” ou, pior ainda, “Eu sou iluminado”. De repente esta crença no pensamento-eu dá cor a tudo que vemos, tudo que fazemos e a cada experiência que acontece. As pessoas acham que a espiritualidade é um estado alterado, mas essa ilusão é o estado alterado. A espiritualidade trata de despertar, não de estados.

Uma vez o meu mestre me disse: “Se espera que a mente pare, você vai esperar para sempre”. De repente tive que refletir sobre a minha possibilidade de iluminação. Eu vinha tentando parar a minha mente havia muito tempo e eu sabia que tinha que encontrar uma outra via de acesso.

A instrução espiritual de “apenas parar” não se dirige à mente, aos sentimentos ou à personalidade. Dirige-se à reflexão ou pensamento posterior que assume o crédito e a culpa e diz: “Isso é meu”. Pare! Esse é o alvo do ensinamento de parar. Apenas pare com isso. E daí, nesse momento, sinta como esse sentido de “eu” se sente tão completamente desarmado. Quando se desarma o sentido de “eu”, ele não sabe o que fazer, se ir para frente ou para trás, para direita ou para esquerda. Eis o tipo de parar que é importante. O resto é só um jogo. Então, nesse parar, começa a emergir um diferente estado de ser, um estado indiviso. Por quê? Porque não estamos mais em conflito com nós mesmos.

A mente ouve estas palavras e pergunta: “O que é um estado de ser indiviso?” Isso também é perder o que está acontecendo agora mesmo. A gente sente um estado indiviso de ser; ele não pode ser encontrado nalgum espaço abstrato ou conceitual, porque o próprio espaço é um estado dividido. Tocamos o estado indiviso quando nos permitimos estar desarmados, quando não estamos tentando provar ou negar nada e ficamos naquele estado de ser desarmado sem resistência. Surge um estado de literalmente estarmos no corpo e além do corpo, e o corpo já não está mais em guerra consigo mesmo. A mente pode ou não estar tendo pensamentos, mas esses pensamentos não estão em guerra entre si. Torne-se curioso sobre a verdadeira natureza de si mesmo, sobre quem você realmente é, porque essa curiosidade o abre para o estado indiviso. A partir do estado indiviso, uma das primeiras coisas que se percebe é que você não sabe quem você é. Antes disso, quando você sabia quem você era, você era dividido – interminavelmente. A partir daqui, onde não há divisão, não há o pesado, restrito e confinado sentido de si. Você se torna um mistério.

A divisão facilita que se encontre um sentido de si. Se estivermos com raiva, por exemplo, é aí que ele está. Mas, quando há somente raiva e não há identificação com a raiva, até a própria raiva de repente se desdobra. E então o que eu sou? Não sou a “minha” raiva, se não sou aquele que está dividido – o que sou eu?

Permita que o mistério de ser se desdobre de uma maneira vivencial. Comece ao nível do ser mais do que do pensar. À medida que se desdobra o mistério, vamos ficando cada vez mais radiantes por sermos apenas esta consciência presente. E daí o sentido de identidade começa a deixar de se definir através da divisão e conflito internos. A mente descobre que não há um gancho para pendurar a identidade, de modo que a identidade começa a desestruturar-se em abertura. Misteriosa e paradoxalmente, quanto mais se desestrutura a identidade, mais vivos e presentes nos sentimos. O sentido de si é como se fosse açúcar a dissolver-se na água até que parece não haver mais um eu e todavia ainda existimos. É possível que Buda dissesse: “Dissolvido todo o açúcar, não há eu”. Ramana Maharshi poderia dizer: “Dissolvido o açúcar na água, água e açúcar são a mesma coisa – há somente o Eu”.

A máxima liberdade do ego inexistente é vermos que na verdade ele é irrelevante. Enquanto for percebido como relevante, ele continua a “tornar-se”. Todas as boas intenções do mundo simplesmente o abastecem. “Estou me livrando de mim mesmo cada vez mais a cada dia e um dia estarei completamente livre de mim mesmo e absolutamente não terei ego”. Como isso soa para você? É ego. Mas, quando num momento de discernimento se vê que o eu é irrelevante, termina o jogo.É como alguém que está jogando banco imobiliário e acha que sua vida depende de ganhar o jogo, quando de repente a pessoa se dá conta de que é irrelevante – não importa. Pode até continuar jogando. Pode ir buscar um sanduíche. Esta vida não trata de vencer o jogo espiritual; trata de acordar do jogo.

Há ainda em nós esta outra parte chamada “condicionamento”, que não é ego. Condicionamento é condicionamento; não é condicionamento egóico. Condicionamento é como se instalássemos um programa no computador mental. Quando se instala o programa, isso não significa que o computador tenha um ego. Simplesmente foi condicionado temporariamente. Na idade em que nos tornamos adultos, o corpo-mente já está completamente condicionado. Por esse condicionamento tem-se culpado o ego, mas o condicionamento não vem do ego. O ego é o pensamento que surge em seguida na esteira do condicionamento, que é onde acontece toda a violência real.

Quando se percebe que o condicionamento é como uma programação fornecida pela codificação genética, pela sociedade, pelos pais, professores, gurus, etc. (a mente também começa a condicionar-se a si mesma, mas essa é outra história), começamos então a reconhecer que o condicionamento não tem nenhum eu, que não há a quem culparmos. É inútil culparmos a nós mesmos, ou outra pessoa, mais do que culparíamos nosso computador quando colocamos nele um disco. Olhe no presente momento para ver qual condicionamento está aí e ver-se-á que não há culpa alguma nele. Ele faz parte da existência. Sem condicionamento ou programação em nossos corpos, pararíamos de respirar, o cérebro tornar-se-ia uma conversa mole, sem inteligência – o que também é condicionamento.

O que mantém o condicionamento firmemente ancorado dentro de nós é que o interpretamos como “meu”. Então, é claro, há culpa própria e alheia e tentamos nos livrar do condicionamento, porque cremos que “eu o criei”, “eu não o criei” ou “não consigo me livrar dele”, e a mente não gosta disso. A mente se ilude em pensar que pode livrar-se desse condicionamento, mas, quando a verdade se instala, começamos a ficar cada vez menos divididos. Quando surge o condicionamento, se não é reivindicado como “meu”, ele surge dentro de um estado indiviso. Este também poderia chamar-se de estado de ser não condicionado. Quando o condicionamento depara com um estado indiviso, há uma transformação alquímica. Há um milagre sagrado.

Quando algo surge, pode-se ter a experiência de que “isto sou eu” ou de que “estou eu aqui de volta” – isto não sou eu”. Ambos são movimentos da mente, ou pensamento posterior, mais conhecido como ego. Mas quando ocorre o estado indiviso, podem acontecer duas coisas. A primeira pode ser um despertar para a nossa verdadeira natureza, que é este estado não dividido, este ser indiviso. A segunda coisa que pode acontecer é que o condicionamento, a confusão que inocentemente foi transmitida pela ignorância, pode reunificar-se. Quando surge o condicionamento dentro de uma pessoa que está num estado indiviso, onde ela nem se apropria dele nem o nega, então pode haver um processo alquímico sagrado através do qual o condicionamento se reunifica totalmente por si. Como a lama na água, o condicionamento naturalmente apenas sedimenta no fundo. É como um milagre natural.

Isso pode ser muito delicado, pois, se houver a mínima apropriação ou a mínima negação de apropriação, esse processo de certa forma se corrompe. Ele requer de nós uma suavidade e abertura interiores, porque este sentido indiviso é muito suave e não podemos procurá-lo como um martelo à procura de um prego. É por essa razão que os ensinamentos espirituais ressaltam a humildade, a qual nos ajuda a entrar na verdade de nosso ser de uma maneira suave e humilde. Não podemos forçar os portões do céu. Ao invés, devemos nos permitir ficar cada vez mais desarmados. Então a pura consciência de ser fica cada vez mais radiante e percebemos quem somos. Essa radiância é o que somos.

Quando fica muito claro, vemos que somos esta claridade, esta luminescência, e então começamos a perceber por nossa própria experiência o que significa este nascimento humano. Esta claridade volta para si mesma, para cada tantinho de confusão, para cada tantinho de sofrimento. Para tudo de que o eu procurava se afastar, retornará o Eu sagrado. Este Eu radiante começa a descobrir sua verdadeira natureza e quer libertar-se de si, desfrutar de si e verdadeira amar-se em todos os seus sabores e aromas. O verdadeiramente sagrado é o amor ao que é, não o amor ao que seria. Este amor liberta o que é.

O verdadeiro coração de todos os seres humanos é o amante do que é. É por isso que não podemos fugir de nenhuma parte de nós mesmos. Não porque sejamos um desastre, mas porque somos conscientes e estamos retornando para tudo de nós mesmos neste nascimento. Não importa quão confusos estejamos, retornaremos para cada parte de nós mesmos que foi deixada fora do jogo. Este é o nascimento de verdadeira compaixão e amor. Há muito tempo dizem as tradições espirituais que você tem que eliminar tanta coisa para alcançar o amor. Mas isso é um mito. A verdade é que é o amor que realmente liberta.

Adyashanti (tradução de Darshano)

Por: shakyamuni

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