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A SENHORA DA RODA DE PRATA Deusa Lunar estar em si - Se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentavam seus sistemas nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da […] Full view

Se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentavam seus sistemas nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “Mansões Lunares” e caracterizados pela posição da lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares se originaram no Paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilônios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo da lunação, com seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal Deusa Lunar da Babilônia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco. Inúmeros artefatos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia, têm inscrições agrupadas e séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronômico dos ciclos lunares. Atualmente, está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e mantenedora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. As suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da geração, nascimento, crescimento, mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces - clara e escura - foram consideradas como aspectos doadores da vida e destruidores da natureza, a Mãe sendo tanto Criadora como Ceifadora. A Lua foi venerada com inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar desta diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com as suas fases. A Lua crescente representa a vitalidade da deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento, a abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.

Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma Deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta existem inúmeras Deusas Lunares com características específicas, relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã. Os povos celtas contavam o tempo pelas noites e seu calendário era lunar e não solar, como o dos gregos e romanos. Os seus astrólogos observavam a posição da Lua e sua progressão em relação às estrelas.

Uma deusa lunar celta pouquíssimo conhecida e com um complexo simbolismo é a galesa Arianrhod, uma mulher linda e com pele muito alva, descrita como a “Senhora da Roda de Prata” por cuidar da roda estelar, cujo giro simbolizava o passar do tempo e a tecelagem do destino. Esta roda luminosa era a constelação estelar em forma de coroa chamada Corona Borealis (considerada pelos gregos como sendo a coroa da deusa Ariadne), cujo nome em galês era Caer Arianrhod.

Arianrhod era um arquétipo da antiga Deusa Mãe celta, regente do céu, das estrelas, da Lua, da fertilidade e do poder feminino, sendo a padroeira dos partos, do mar, da magia e da justiça. Ela personificava vários outros atributos por ser regente do tempo e do destino, Senhora da beleza, da Lua cheia e da reencarnação. Era cultuada no País de Gales como uma Deusa Tríplice (ela como Mãe, Blodeuwedd como virgem e Cerridwen como Anciã). Ela se apresentava de forma dupla, como Virgem e como Mãe, padroeira da Lua, da noite, do amor, da sexualidade, da magia, da justiça e do destino.

Mitos mais tardios apresentam-na como uma Deusa Mãe, girando a Roda de Prata e transformando-a em uma barca lunar. Nela, Arianrhod transportava as almas dos mortos para a Lua ou para sua constelação. Outro mito também a descreve como Morgause ou Morgawse, a deusa da Lua e da noite, transformada pelos romances medievais em uma simples feiticeira.

Arianrhod regia Caer Sidi, a “Torre do outro mundo”, o reino encantado onde ficava seu palácio Caer Arianrhod, ou seja, “O castelo giratório de Arianrhod”, onde os celtas acreditavam que as almas se recolhiam entre as suas encarnações e os poetas aprendiam sua arte. Depois de recolher os espíritos e levá-los na sua “Roda giratória movida por remos” para uma parada em Emania ou Magonia, Arianrhod seguia ao longo da “Roda das encarnações” e os conduzia para a sua próxima parada, iniciando-os no novo ciclo de vida em Caer Sidi.

Nos mitos lunares contava-se que Arianrhod se metamorfoseava numa grande coruja e com seus olhos penetrantes perscrutava a escuridão – da noite, do subconsciente humano e da alma. Ela se locomovia facilmente na noite e levava nas suas asas conforto, cura e aceitação para os doentes e moribundos. Arianrhod regia as iniciações, os ritos de passagem femininos (menarca, ciclos menstruais, parto, menopausa, morte, renascimento), a magia, a sabedoria oculta e a renovação, sua luz sendo refletida por inúmeras camadas de tempo, modelagem do destino e experiências. Seus símbolos eram o caldeirão (representando o poder feminino e atributo de outras deusas também) e a porca branca, indicando assim sua conexão com o mundo subterrâneo e o renascimento.

Arianrhod – semelhante à grega Ártemis – era independente, possuía uma grande força espiritual e por não precisar de nenhuma figura masculina, era considerada a “Deusa branca e virgem”. O conceito de “virgem” para os povos antigos indicava autossuficiência e independência, sem nenhuma relação com a integridade do hímen. Arianrhod vivia de maneira livre e selvagem, cercada apenas por mulheres, suas sacerdotisas, ocasionalmente tendo relações sexuais - nas noites de lua cheia - com os marinheiros que aportavam nas praias do seu longínquo e ermo habitat. De lá, Arianrhod descia na sua carruagem prateada até mergulhar nas ondas do mar quando era reverenciada na noite de 11 de dezembro.

O mito de Arianrhod - registrado na coletânea de textos galeses Mabinogion (escritos entre os séculos XI e XIII) - é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações feitas pelos monges e historiadores cristãos da interpretação das lendas da tradição oral dos bardos. As antigas verdades ficaram ocultas entre as linhas e prevaleceram os conceitos misóginos e patriarcais cristãos, que condenavam e perseguiam atitudes e valores especificamente femininos, considerando a liberdade sexual da mulher como um pecado e perigo para a pureza da alma cristã, que devia ser combatido e punido. Para impedir a continuação da antiga liberdade sexual pagã, os ritos sagrados das Tradições da Deusa foram declarados obscenos, licenciosos e demoníacos, devendo ser abolidos quaisquer referências a eles.

Vários mitos de deusas descritos em Mabinogion (como os de Blodeuwedd, Branwen, Rhiannon, Ceridwen, que junto com Arianrhod são vistas como “Senhoras de Avalon”) passaram pelos mesmos “retoques” e adaptações. Estas reinterpretações e distorções feitas pelos monges cristãos que foram os tradutores (e traidores...) dos textos celtas, transformaram os mitos arcaicos em histórias inverossímeis e confusas. O maior objetivo dos historiadores cristãos (na sua maioria monges) era ocultar os valores e verdades das culturas matriarcais e promover as regras, conceitos e imposições da nova ordem patriarcal.

Arianrhod aparece no mito reinterpretado como um arquétipo feminino pouco ético, que comete erros, renega e abandona seus filhos e até mesmo amaldiçoa o menos afortunado, sem jamais se desculpar pelo seu comportamento, agindo de acordo com seu verdadeiro ser e seu poder de soberana. Quando deu à luz, Arianrhod não assume sua maternidade, nem proclama seu direito de fazer escolhas e lidar com as consequências como uma soberana, mas se mostra enfraquecida, envergonhada e humilhada, renega seus filhos e foge para o seu castelo. Por não querer abrir mão da sua liberdade em benefício dos filhos, sua atitude pouco materna nos parece inadmissível e abominável. Don, sua mãe, tinha escolhido seus parceiros e pais dos seus três filhos de acordo com a lei antiga, quando a rainha escolhia e demitia seus consortes, sem criar vínculos de casamento. Arianrhod pode ter seguido o exemplo materno, permitido pela lei matriarcal, que era de acordo com a sua modalidade ”virgem” de viver, morando só no seu castelo e fazendo amor com marinheiros nas praias, nas noites de lua cheia (a metáfora da Lua mergulhando no mar). Por ela ser a primogênita e reconhecidamente poderosa, Arianrhod era uma ameaça para o poder masculino e por isso devia ser ridicularizada e banida, reforçando assim a hierarquia real e divina masculina.

No conceito da cultura matriarcal, a virgindade não era ligada à integridade física, mas ao estado de espírito e ao comportamento, virgem sendo a mulher que era livre e completa em si, sem depender de um homem. O mito não conta sobre a vida posterior de Arianrhod, nem sobre seus eventuais remorsos e arrependimentos. Ela passa a viver só no seu castelo, fiel a si mesma, fazendo suas escolhas e vivendo a verdade da sua própria luz lunar mutante. Alguns estudiosos interpretam este mito como a representação da mudança do direito materno para o paterno, enquanto outros relegam o mito de Arianrhod à história de uma simples heroína celta, sem atributos divinos.

Olhando sob as retificações e distorções cristãs, podemos perceber e resgatar as antigas verdades das sociedades centradas no culto das Deusas e descartar a sua usurpação e difamação pela nova ordem dos conquistadores patriarcais. A figura luminosa de Arianrhod resistiu à deturpação milenar e às distorções do seu simbolismo. Nas noites de lua cheia, ela pode ser vista sentada no seu trono cósmico, coroada pela magnificência da Corona Borealis, continuando a girar a sua roda prateada e tecer com seus fios o futuro da humanidade. Comprova-se assim - por metáforas e intrincados simbolismos celtas - a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais das Deusas, que foram substituídos pelos mitos e cultos solares posteriores.

Mirella Faur 

A SENHORA DA RODA DE PRATA

Se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentavam seus sistemas nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “Mansões Lunares” e caracterizados pela posição da lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares se originaram no Paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilônios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo da lunação, com seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal Deusa Lunar da Babilônia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco. Inúmeros artefatos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia, têm inscrições agrupadas e séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronômico dos ciclos lunares. Atualmente, está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e mantenedora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. As suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da geração, nascimento, crescimento, mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces – clara e escura – foram consideradas como aspectos doadores da vida e destruidores da natureza, a Mãe sendo tanto Criadora como Ceifadora. A Lua foi venerada com inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar desta diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com as suas fases. A Lua crescente representa a vitalidade da deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento, a abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.

Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma Deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta existem inúmeras Deusas Lunares com características específicas, relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã. Os povos celtas contavam o tempo pelas noites e seu calendário era lunar e não solar, como o dos gregos e romanos. Os seus astrólogos observavam a posição da Lua e sua progressão em relação às estrelas.

Uma deusa lunar celta pouquíssimo conhecida e com um complexo simbolismo é a galesa Arianrhod, uma mulher linda e com pele muito alva, descrita como a “Senhora da Roda de Prata” por cuidar da roda estelar, cujo giro simbolizava o passar do tempo e a tecelagem do destino. Esta roda luminosa era a constelação estelar em forma de coroa chamada Corona Borealis (considerada pelos gregos como sendo a coroa da deusa Ariadne), cujo nome em galês era Caer Arianrhod.

Arianrhod era um arquétipo da antiga Deusa Mãe celta, regente do céu, das estrelas, da Lua, da fertilidade e do poder feminino, sendo a padroeira dos partos, do mar, da magia e da justiça. Ela personificava vários outros atributos por ser regente do tempo e do destino, Senhora da beleza, da Lua cheia e da reencarnação. Era cultuada no País de Gales como uma Deusa Tríplice (ela como Mãe, Blodeuwedd como virgem e Cerridwen como Anciã). Ela se apresentava de forma dupla, como Virgem e como Mãe, padroeira da Lua, da noite, do amor, da sexualidade, da magia, da justiça e do destino.

Mitos mais tardios apresentam-na como uma Deusa Mãe, girando a Roda de Prata e transformando-a em uma barca lunar. Nela, Arianrhod transportava as almas dos mortos para a Lua ou para sua constelação. Outro mito também a descreve como Morgause ou Morgawse, a deusa da Lua e da noite, transformada pelos romances medievais em uma simples feiticeira.

Arianrhod regia Caer Sidi, a “Torre do outro mundo”, o reino encantado onde ficava seu palácio Caer Arianrhod, ou seja, “O castelo giratório de Arianrhod”, onde os celtas acreditavam que as almas se recolhiam entre as suas encarnações e os poetas aprendiam sua arte. Depois de recolher os espíritos e levá-los na sua “Roda giratória movida por remos” para uma parada em Emania ou Magonia, Arianrhod seguia ao longo da “Roda das encarnações” e os conduzia para a sua próxima parada, iniciando-os no novo ciclo de vida em Caer Sidi.

Nos mitos lunares contava-se que Arianrhod se metamorfoseava numa grande coruja e com seus olhos penetrantes perscrutava a escuridão – da noite, do subconsciente humano e da alma. Ela se locomovia facilmente na noite e levava nas suas asas conforto, cura e aceitação para os doentes e moribundos. Arianrhod regia as iniciações, os ritos de passagem femininos (menarca, ciclos menstruais, parto, menopausa, morte, renascimento), a magia, a sabedoria oculta e a renovação, sua luz sendo refletida por inúmeras camadas de tempo, modelagem do destino e experiências. Seus símbolos eram o caldeirão (representando o poder feminino e atributo de outras deusas também) e a porca branca, indicando assim sua conexão com o mundo subterrâneo e o renascimento.

Arianrhod – semelhante à grega Ártemis – era independente, possuía uma grande força espiritual e por não precisar de nenhuma figura masculina, era considerada a “Deusa branca e virgem”. O conceito de “virgem” para os povos antigos indicava autossuficiência e independência, sem nenhuma relação com a integridade do hímen. Arianrhod vivia de maneira livre e selvagem, cercada apenas por mulheres, suas sacerdotisas, ocasionalmente tendo relações sexuais – nas noites de lua cheia – com os marinheiros que aportavam nas praias do seu longínquo e ermo habitat. De lá, Arianrhod descia na sua carruagem prateada até mergulhar nas ondas do mar quando era reverenciada na noite de 11 de dezembro.

O mito de Arianrhod – registrado na coletânea de textos galeses Mabinogion (escritos entre os séculos XI e XIII) – é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações feitas pelos monges e historiadores cristãos da interpretação das lendas da tradição oral dos bardos. As antigas verdades ficaram ocultas entre as linhas e prevaleceram os conceitos misóginos e patriarcais cristãos, que condenavam e perseguiam atitudes e valores especificamente femininos, considerando a liberdade sexual da mulher como um pecado e perigo para a pureza da alma cristã, que devia ser combatido e punido. Para impedir a continuação da antiga liberdade sexual pagã, os ritos sagrados das Tradições da Deusa foram declarados obscenos, licenciosos e demoníacos, devendo ser abolidos quaisquer referências a eles.

Vários mitos de deusas descritos em Mabinogion (como os de Blodeuwedd, Branwen, Rhiannon, Ceridwen, que junto com Arianrhod são vistas como “Senhoras de Avalon”) passaram pelos mesmos “retoques” e adaptações. Estas reinterpretações e distorções feitas pelos monges cristãos que foram os tradutores (e traidores…) dos textos celtas, transformaram os mitos arcaicos em histórias inverossímeis e confusas. O maior objetivo dos historiadores cristãos (na sua maioria monges) era ocultar os valores e verdades das culturas matriarcais e promover as regras, conceitos e imposições da nova ordem patriarcal.

Arianrhod aparece no mito reinterpretado como um arquétipo feminino pouco ético, que comete erros, renega e abandona seus filhos e até mesmo amaldiçoa o menos afortunado, sem jamais se desculpar pelo seu comportamento, agindo de acordo com seu verdadeiro ser e seu poder de soberana. Quando deu à luz, Arianrhod não assume sua maternidade, nem proclama seu direito de fazer escolhas e lidar com as consequências como uma soberana, mas se mostra enfraquecida, envergonhada e humilhada, renega seus filhos e foge para o seu castelo. Por não querer abrir mão da sua liberdade em benefício dos filhos, sua atitude pouco materna nos parece inadmissível e abominável. Don, sua mãe, tinha escolhido seus parceiros e pais dos seus três filhos de acordo com a lei antiga, quando a rainha escolhia e demitia seus consortes, sem criar vínculos de casamento. Arianrhod pode ter seguido o exemplo materno, permitido pela lei matriarcal, que era de acordo com a sua modalidade ”virgem” de viver, morando só no seu castelo e fazendo amor com marinheiros nas praias, nas noites de lua cheia (a metáfora da Lua mergulhando no mar). Por ela ser a primogênita e reconhecidamente poderosa, Arianrhod era uma ameaça para o poder masculino e por isso devia ser ridicularizada e banida, reforçando assim a hierarquia real e divina masculina.

No conceito da cultura matriarcal, a virgindade não era ligada à integridade física, mas ao estado de espírito e ao comportamento, virgem sendo a mulher que era livre e completa em si, sem depender de um homem. O mito não conta sobre a vida posterior de Arianrhod, nem sobre seus eventuais remorsos e arrependimentos. Ela passa a viver só no seu castelo, fiel a si mesma, fazendo suas escolhas e vivendo a verdade da sua própria luz lunar mutante. Alguns estudiosos interpretam este mito como a representação da mudança do direito materno para o paterno, enquanto outros relegam o mito de Arianrhod à história de uma simples heroína celta, sem atributos divinos.

Olhando sob as retificações e distorções cristãs, podemos perceber e resgatar as antigas verdades das sociedades centradas no culto das Deusas e descartar a sua usurpação e difamação pela nova ordem dos conquistadores patriarcais. A figura luminosa de Arianrhod resistiu à deturpação milenar e às distorções do seu simbolismo. Nas noites de lua cheia, ela pode ser vista sentada no seu trono cósmico, coroada pela magnificência da Corona Borealis, continuando a girar a sua roda prateada e tecer com seus fios o futuro da humanidade. Comprova-se assim – por metáforas e intrincados simbolismos celtas – a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais das Deusas, que foram substituídos pelos mitos e cultos solares posteriores.

Mirella Faur 

Por: shakyamuni

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