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A SACOLA QUE ARRASTAMOS ATRÁS DE NÓS FRANCE-PLASTIC-ENVIRONMENT-WASTE - O poeta norte-americano Robert Bly é hoje mundialmente conhecido pela abordagem do universo masculino registrada em seu livro João de Ferro. Mas neste texto abaixo, os talentos junguianos de Bly se voltam para outra temática também crucial – a forma como a “sombra” pessoal inconsciente influencia cada passo de nossas vidas. Diz uma antiga tradição […] Full view

O poeta norte-americano Robert Bly é hoje mundialmente conhecido pela abordagem do universo masculino registrada em seu livro João de Ferro. Mas neste texto abaixo, os talentos junguianos de Bly se voltam para outra temática também crucial - a forma como a "sombra" pessoal inconsciente influencia cada passo de nossas vidas.

Diz uma antiga tradição gnóstica que não inventamos as coisas, apenas as relembramos. Dentre os europeus que conheço, aqueles que melhor relembram o lado escuro são Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Carl Jung. Vou retomar algumas de suas idéias e acrescentar uns poucos pensamentos meus.

Falemos sobre a sombra pessoal. Com um ou dois anos de idade, temos uma "personalidade de 360 graus". A energia se irradia de todas as partes do nosso corpo e de todas as partes da nossa psique. Uma criança correndo é um globo vivo de energia. Quando crianças, somos uma bola de energia; mas um dia percebemos que nossos pais não apreciam certas partes dessa bola. Eles dizem: "Você não consegue ficar quieto?" ou "Não é bonito tentar matar seu irmãozinho".

Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que eles não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande. E aí nossos professores nos dizem: "O bom menino não fica bravo com coisinhas à toa", e nós guardamos nossa raiva na sacola.

Quando eu e meu irmão tínhamos doze anos em Madison, Minnesota, éramos conhecidos como "os bons meninos Bly". Nossas sacolas já tinham um quilômetro de comprimento!

Sob a pressão do grupo

Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. Agora quem nos pressiona não são os malvados adultos e sim o nosso próprio grupo etário. A paranoia dos jovens em relação aos adultos talvez esteja deslocada. Eu mentia automaticamente, durante todo o colegial, para me tornar mais parecido com os jogadores de basquete. Qualquer parte de mim que fosse mais "lenta" ia para a sacola. Meus filhos passam agora por esse processo, que eu já tinha observado nas minhas filhas, mais velhas que eles. Minha mulher e eu olhávamos, consternados, quantas coisas elas colocavam na sacola, mas não havia nada que pudéssemos fazer. Minhas filhas pareciam tomar suas decisões com base na moda e nos ideais coletivos de beleza, e sofriam tanta pressão das amiguinhas quanto dos rapazes.

Por isto sustento que o jovem de 20 anos conserva uma simples fatia daquele globo de energia. Imagine um homem que ficou com uma fina fatia - o restante do globo está na sacola - e que ele conhece uma mulher; digamos que ambos tem 24 anos de idade. Ela conservou uma fina e elegante fatia. Eles se unem numa cerimônia e essa união de duas fatias chama-se casamento. Mesmo unidos, os dois não formam uma pessoa! É exatamente por isso que o casamento, quando as sacolas são grandes, acarreta solidão durante a lua-de-mel. Claro que todos nós mentimos a esse respeito. "Como foi sua lua-de-mel?" - "Fantástica e a sua?"

A sacola lacrada

Cada cultura enche a sacola com conteúdos diferentes. Na cultura cristã, a sexualidade geralmente vai para a sacola. E, com ela, muito da espontaneidade. Por outro lado, Marie-Louise von Franz nos alerta para não sentimentalizarmos as culturas primitivas assumindo que elas não tinham nenhuma sacola. Ela diz que, na verdade, essas culturas tinham sacolas diferentes das nossas e, às vezes, até maiores. Talvez colocassem nelas a individualidade ou a inventividade. Aquilo que os antropólogos conhecem como "participação mística" ou " a misteriosa mente comunal" pode parecer muito bonito, mas talvez signifique apenas que todos os membros da tribo conhecem exatamente a mesma coisa e nenhum deles conhece nada além disso. É possível que as sacolas de todos os seres humanos sejam mais ou menos do mesmo tamanho.

Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-la de lá. Algumas vezes parece impossível recuperá-las, como se a sacola estivesse lacrada. Vamos supor que a sacola está lacrada - o que acontece?...Um grande romance do século XIX ofereceu uma idéia a respeito. Certa noite, Robert Louis Stevenson acordou e contou para a mulher um trecho do sonho que acabara de ter. Ela o convenceu a escrevê-lo, ele o fez e o sonho tornou-se o "Dr. Jekyl e Mr. Hyde". O lado agradável da personalidade torna-se, na nossa cultura idealista, cada vez mais agradável. O homem ocidental talvez seja, por exemplo, um médico liberal que só pensa em fazer o bem. Em termos morais e éticos, ele é maravilhoso. Mas a substância na sua sacola assume personalidade própria; ela não pode ser ignorada. A história conta que a substância trancada na sacola aparece, certo dia, em uma outra parte da cidade. Ela está cheia de raiva e, quando finalmente é vista, tem a forma e os movimentos de um gorila.

Passos regressivos

O que essa história conta é que quando colocamos uma parte de nós na sacola, essa parte regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 anos e espera uns 15 anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas seu temperamento se tornou primitivo, como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. O homem ou a mulher que abrem a sacola aos 45 anos sentem medo. Eles dão uma olhada e vêem a sombra de um gorila se esgueirando contra a parede; ora, qualquer pessoa que veja uma coisa dessas fica aterrorizada!

Pode-se dizer que, na nossa cultura, a maioria dos homens coloca o seu lado feminino (a mulher interior) na sacola. Quando ele quer, lá pelos 35 ou 40 anos, entrar novamente em contato com o seu lado feminino, a mulher interior talvez lhe seja bastante hostil. Nesse meio tempo, ele está enfrentando a hostilidade das mulheres no mundo exterior.

A regra parece ser: o lado de fora é um espelho do lado de dentro. É assim que as coisas são neste nosso mundo. E a mulher que queria ser aceita pela sua feminilidade e para isso guardou seu lado masculino (o homem interior) na sacola, talvez descubra, 20 anos mais tarde, que ele lhe é hostil. Talvez ele também seja insensível e brutal em suas críticas. Essa mulher estará em apuros. Viver com um homem hostil dará a ela alguém a quem censurar e aliviará a pressão, mas não resolverá o problema da sacola fechada. Nesse meio tempo, ela está propensa a uma dupla rejeição: a do homem interior e a do homem exterior. Existe muita dor nisso tudo.

O processo projetivo

Quero falar sobre a ligação entre as energias da sombra e o projetor de cinema. Vamos supor que miniaturizamos algumas partes de nós mesmos, as enrolamos como um filme e colocamos dentro de uma lata, onde elas ficarão no escuro. Então uma noite - sempre à noite - as formas reaparecem, imensas, e não conseguimos desviar nossos olhos delas. Estamos dirigindo à noite, fora da cidade, e vemos um homem e uma mulher numa enorme tela de cinema ao ar livre; paramos o carro e observamos. Algumas formas que foram enroladas dentro da lata (duplamente invisíveis, por estarem só parcialmente "reveladas" e por terem sido mantidas na escuridão) existem, durante o dia, apenas como pálidas imagens numa fina tira de celuloide cinzento. Quando uma certa luz se acende por trás de nós, formas fantasmagóricas aparecem na parede à nossa frente. Elas acendem cigarros; ameaçam os outros com revólveres. Nossa psiquê, portanto, é uma máquina natural de projeção: podemos recuperar as imagens que guardamos enroladas na lata e projetá-las para outros ou sobre os outros. O marido pode rever sua raiva, enrolada na lata por vinte anos, no rosto da mulher. A mulher que sempre vê um herói no rosto do marido, certa noite, vê ali um tirano.

Mas a projeção também é uma coisa maravilhosa. Marie Louise von Franz observou num de seus escritos: "Por que assumimos que a projeção é sempre uma coisa ruim? 'Você está projetando' tornou-se uma acusação entre os junguianos. Às vezes a projeção é útil, é a coisa certa." Sua observação é sábia. Marie-Louise von Franz nos faz lembrar que, se não projetarmos, nunca conseguiremos estabelecer uma conexão com o mundo. As mulheres reclamam que o homem pega seu lado feminino ideal e o projeta sobre elas. Mas se não fizesse isso, como poderia ele sair da casa da mãe ou do apartamento de solteiro? A questão não é tanto de projetarmos, mas sim por quanto tempo mantemos a projeção sobre o outro.

A traição da infância

Mas por que abrir mão ou colocar na sacola tanto de nós mesmos? Por que o fazemos ainda tão jovens? E se colocamos de lado tantas das nossas raivas, espontaneidades, fomes, entusiasmos, nossas porções rudes e feias, como podemos viver? O que nos mantêm? Alice Miller analisou esse ponto no seu livro O Drama da Criança Bem-Dotada.

O drama é este. Chegamos como bebês "trilhando nuvens de glória" e vindos das mais distantes amplidões do universo, trazendo conosco apetites bem preservados da nossa herança de mamíferos, espontaneidades maravilhosamente preservadas dos nossos 150 mil anos de vida nas árvores, raivas bem preservadas dos nossos 5 mil anos de vida tribal - em suma, irradiando nossos 360 graus - e oferecendo esse dom aos nossos pais. Eles não o queriam. Queriam uma linda menininha ou um lindo garotinho. Esse é o primeiro ato do drama. Não quer dizer que nossos pais fossem perversos: é que eles precisavam de nós para alguma coisa. Minha mãe, imigrante de segunda geração, precisava de meu irmão e de mim para dar um toque de classe à família. Fazemos o mesmo aos nossos filhos; é parte da vida neste planeta. Nossos pais rejeitaram aquilo que éramos antes de podermos falar e, assim, a dor da rejeição está provavelmente guardada em algum local pré-verbal dentro de nós.

Quando li o livro de Alice Miller, fiquei deprimido por três semanas. Com tantas coisas perdidas, o que podemos fazer? Podemos construir uma personalidade que seja mais aceitável aos nossos pais. Alice Miller concorda que traímos a nós mesmos, mas diz, "Não se culpe por isso. Não há nada mais que você pudesse ter feito". Nos tempos antigos, é provável que as crianças que se opunham aos pais fossem condenadas à morte. Fizemos, enquanto crianças, a única coisa sensata diante das circunstâncias. A atitude adequada, diz Alice Miller, é o luto.

A energia represada

Falemos agora dos outros tipos de sacolas. Quando colocamos muita coisa na sacola particular, o resultado é nos sobrar pouca energia. Quanto maior a sacola, menor a energia. Algumas pessoas tem, por natureza, mais energia que outras; mas todos nós temos mais energia do que nos é possível usar. Para onde ela foi? Se colocamos nossa sexualidade na sacola enquanto somos crianças, é lógico que perdemos bastante energia. Quando coloca seu lado masculino na sacola ou o enrola como um filme e guarda na lata, uma mulher perde energia. Assim, podemos imaginar que a nossa sacola pessoal contém energia que agora não está à nossa disposição. Se um homem diz que não é criativo, quer dizer que ele guardou sua criatividade na sacola. O que ele quer dizer com "Eu não sou criativo" ? Não seria "Deixe para o especialista"? Ora, é exatamente isso que ele está dizendo! O que ele quer é um poeta de aluguel, um mercenário caído dos céus. Ele deveria, isso sim, estar escrevendo os seus próprios poemas.

Usei três metáforas aqui: a sacola, a lata de filme e a projeção. Já que a lata (ou sacola) está fechada e suas imagens permanecem na escuridão, só podemos ver seu conteúdo quando o lançamos - com maior inocência, como costumamos dizer - lá fora no mundo. E então as aranhas se tornam más, as serpentes astuciosas e os bodes libidinosos; os homens tornam-se lineares, as mulheres passam a ser fracas, os russos deixam de ter princípios e todos os chineses se parecem. Apesar de tudo, é precisamente através desse "mar de lama" dispendioso, prejudicial, ruinoso e confuso que acabaremos por entrar em contato com a lama sob nossos pés.

Edição: Shakyamuni

 

A SACOLA QUE ARRASTAMOS ATRÁS DE NÓS

O poeta norte-americano Robert Bly é hoje mundialmente conhecido pela abordagem do universo masculino registrada em seu livro João de Ferro. Mas neste texto abaixo, os talentos junguianos de Bly se voltam para outra temática também crucial – a forma como a “sombra” pessoal inconsciente influencia cada passo de nossas vidas.

Diz uma antiga tradição gnóstica que não inventamos as coisas, apenas as relembramos. Dentre os europeus que conheço, aqueles que melhor relembram o lado escuro são Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Carl Jung. Vou retomar algumas de suas idéias e acrescentar uns poucos pensamentos meus.

Falemos sobre a sombra pessoal. Com um ou dois anos de idade, temos uma “personalidade de 360 graus”. A energia se irradia de todas as partes do nosso corpo e de todas as partes da nossa psique. Uma criança correndo é um globo vivo de energia. Quando crianças, somos uma bola de energia; mas um dia percebemos que nossos pais não apreciam certas partes dessa bola. Eles dizem: “Você não consegue ficar quieto?” ou “Não é bonito tentar matar seu irmãozinho”.

Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que eles não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande. E aí nossos professores nos dizem: “O bom menino não fica bravo com coisinhas à toa”, e nós guardamos nossa raiva na sacola.

Quando eu e meu irmão tínhamos doze anos em Madison, Minnesota, éramos conhecidos como “os bons meninos Bly“. Nossas sacolas já tinham um quilômetro de comprimento!

Sob a pressão do grupo

Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. Agora quem nos pressiona não são os malvados adultos e sim o nosso próprio grupo etário. A paranoia dos jovens em relação aos adultos talvez esteja deslocada. Eu mentia automaticamente, durante todo o colegial, para me tornar mais parecido com os jogadores de basquete. Qualquer parte de mim que fosse mais “lenta” ia para a sacola. Meus filhos passam agora por esse processo, que eu já tinha observado nas minhas filhas, mais velhas que eles. Minha mulher e eu olhávamos, consternados, quantas coisas elas colocavam na sacola, mas não havia nada que pudéssemos fazer. Minhas filhas pareciam tomar suas decisões com base na moda e nos ideais coletivos de beleza, e sofriam tanta pressão das amiguinhas quanto dos rapazes.

Por isto sustento que o jovem de 20 anos conserva uma simples fatia daquele globo de energia. Imagine um homem que ficou com uma fina fatia – o restante do globo está na sacola – e que ele conhece uma mulher; digamos que ambos tem 24 anos de idade. Ela conservou uma fina e elegante fatia. Eles se unem numa cerimônia e essa união de duas fatias chama-se casamento. Mesmo unidos, os dois não formam uma pessoa! É exatamente por isso que o casamento, quando as sacolas são grandes, acarreta solidão durante a lua-de-mel. Claro que todos nós mentimos a esse respeito. “Como foi sua lua-de-mel?” – “Fantástica e a sua?”

A sacola lacrada

Cada cultura enche a sacola com conteúdos diferentes. Na cultura cristã, a sexualidade geralmente vai para a sacola. E, com ela, muito da espontaneidade. Por outro lado, Marie-Louise von Franz nos alerta para não sentimentalizarmos as culturas primitivas assumindo que elas não tinham nenhuma sacola. Ela diz que, na verdade, essas culturas tinham sacolas diferentes das nossas e, às vezes, até maiores. Talvez colocassem nelas a individualidade ou a inventividade. Aquilo que os antropólogos conhecem como “participação mística” ou “ a misteriosa mente comunal” pode parecer muito bonito, mas talvez signifique apenas que todos os membros da tribo conhecem exatamente a mesma coisa e nenhum deles conhece nada além disso. É possível que as sacolas de todos os seres humanos sejam mais ou menos do mesmo tamanho.

Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-la de lá. Algumas vezes parece impossível recuperá-las, como se a sacola estivesse lacrada. Vamos supor que a sacola está lacrada – o que acontece?…Um grande romance do século XIX ofereceu uma idéia a respeito. Certa noite, Robert Louis Stevenson acordou e contou para a mulher um trecho do sonho que acabara de ter. Ela o convenceu a escrevê-lo, ele o fez e o sonho tornou-se o “Dr. Jekyl e Mr. Hyde”. O lado agradável da personalidade torna-se, na nossa cultura idealista, cada vez mais agradável. O homem ocidental talvez seja, por exemplo, um médico liberal que só pensa em fazer o bem. Em termos morais e éticos, ele é maravilhoso. Mas a substância na sua sacola assume personalidade própria; ela não pode ser ignorada. A história conta que a substância trancada na sacola aparece, certo dia, em uma outra parte da cidade. Ela está cheia de raiva e, quando finalmente é vista, tem a forma e os movimentos de um gorila.

Passos regressivos

O que essa história conta é que quando colocamos uma parte de nós na sacola, essa parte regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 anos e espera uns 15 anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas seu temperamento se tornou primitivo, como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. O homem ou a mulher que abrem a sacola aos 45 anos sentem medo. Eles dão uma olhada e vêem a sombra de um gorila se esgueirando contra a parede; ora, qualquer pessoa que veja uma coisa dessas fica aterrorizada!

Pode-se dizer que, na nossa cultura, a maioria dos homens coloca o seu lado feminino (a mulher interior) na sacola. Quando ele quer, lá pelos 35 ou 40 anos, entrar novamente em contato com o seu lado feminino, a mulher interior talvez lhe seja bastante hostil. Nesse meio tempo, ele está enfrentando a hostilidade das mulheres no mundo exterior.

A regra parece ser: o lado de fora é um espelho do lado de dentro. É assim que as coisas são neste nosso mundo. E a mulher que queria ser aceita pela sua feminilidade e para isso guardou seu lado masculino (o homem interior) na sacola, talvez descubra, 20 anos mais tarde, que ele lhe é hostil. Talvez ele também seja insensível e brutal em suas críticas. Essa mulher estará em apuros. Viver com um homem hostil dará a ela alguém a quem censurar e aliviará a pressão, mas não resolverá o problema da sacola fechada. Nesse meio tempo, ela está propensa a uma dupla rejeição: a do homem interior e a do homem exterior. Existe muita dor nisso tudo.

O processo projetivo

Quero falar sobre a ligação entre as energias da sombra e o projetor de cinema. Vamos supor que miniaturizamos algumas partes de nós mesmos, as enrolamos como um filme e colocamos dentro de uma lata, onde elas ficarão no escuro. Então uma noite – sempre à noite – as formas reaparecem, imensas, e não conseguimos desviar nossos olhos delas. Estamos dirigindo à noite, fora da cidade, e vemos um homem e uma mulher numa enorme tela de cinema ao ar livre; paramos o carro e observamos. Algumas formas que foram enroladas dentro da lata (duplamente invisíveis, por estarem só parcialmente “reveladas” e por terem sido mantidas na escuridão) existem, durante o dia, apenas como pálidas imagens numa fina tira de celuloide cinzento. Quando uma certa luz se acende por trás de nós, formas fantasmagóricas aparecem na parede à nossa frente. Elas acendem cigarros; ameaçam os outros com revólveres. Nossa psiquê, portanto, é uma máquina natural de projeção: podemos recuperar as imagens que guardamos enroladas na lata e projetá-las para outros ou sobre os outros. O marido pode rever sua raiva, enrolada na lata por vinte anos, no rosto da mulher. A mulher que sempre vê um herói no rosto do marido, certa noite, vê ali um tirano.

Mas a projeção também é uma coisa maravilhosa. Marie Louise von Franz observou num de seus escritos: “Por que assumimos que a projeção é sempre uma coisa ruim? ‘Você está projetando’ tornou-se uma acusação entre os junguianos. Às vezes a projeção é útil, é a coisa certa.” Sua observação é sábia. Marie-Louise von Franz nos faz lembrar que, se não projetarmos, nunca conseguiremos estabelecer uma conexão com o mundo. As mulheres reclamam que o homem pega seu lado feminino ideal e o projeta sobre elas. Mas se não fizesse isso, como poderia ele sair da casa da mãe ou do apartamento de solteiro? A questão não é tanto de projetarmos, mas sim por quanto tempo mantemos a projeção sobre o outro.

A traição da infância

Mas por que abrir mão ou colocar na sacola tanto de nós mesmos? Por que o fazemos ainda tão jovens? E se colocamos de lado tantas das nossas raivas, espontaneidades, fomes, entusiasmos, nossas porções rudes e feias, como podemos viver? O que nos mantêm? Alice Miller analisou esse ponto no seu livro O Drama da Criança Bem-Dotada.

O drama é este. Chegamos como bebês “trilhando nuvens de glória” e vindos das mais distantes amplidões do universo, trazendo conosco apetites bem preservados da nossa herança de mamíferos, espontaneidades maravilhosamente preservadas dos nossos 150 mil anos de vida nas árvores, raivas bem preservadas dos nossos 5 mil anos de vida tribal – em suma, irradiando nossos 360 graus – e oferecendo esse dom aos nossos pais. Eles não o queriam. Queriam uma linda menininha ou um lindo garotinho. Esse é o primeiro ato do drama. Não quer dizer que nossos pais fossem perversos: é que eles precisavam de nós para alguma coisa. Minha mãe, imigrante de segunda geração, precisava de meu irmão e de mim para dar um toque de classe à família. Fazemos o mesmo aos nossos filhos; é parte da vida neste planeta. Nossos pais rejeitaram aquilo que éramos antes de podermos falar e, assim, a dor da rejeição está provavelmente guardada em algum local pré-verbal dentro de nós.

Quando li o livro de Alice Miller, fiquei deprimido por três semanas. Com tantas coisas perdidas, o que podemos fazer? Podemos construir uma personalidade que seja mais aceitável aos nossos pais. Alice Miller concorda que traímos a nós mesmos, mas diz, “Não se culpe por isso. Não há nada mais que você pudesse ter feito”. Nos tempos antigos, é provável que as crianças que se opunham aos pais fossem condenadas à morte. Fizemos, enquanto crianças, a única coisa sensata diante das circunstâncias. A atitude adequada, diz Alice Miller, é o luto.

A energia represada

Falemos agora dos outros tipos de sacolas. Quando colocamos muita coisa na sacola particular, o resultado é nos sobrar pouca energia. Quanto maior a sacola, menor a energia. Algumas pessoas tem, por natureza, mais energia que outras; mas todos nós temos mais energia do que nos é possível usar. Para onde ela foi? Se colocamos nossa sexualidade na sacola enquanto somos crianças, é lógico que perdemos bastante energia. Quando coloca seu lado masculino na sacola ou o enrola como um filme e guarda na lata, uma mulher perde energia. Assim, podemos imaginar que a nossa sacola pessoal contém energia que agora não está à nossa disposição. Se um homem diz que não é criativo, quer dizer que ele guardou sua criatividade na sacola. O que ele quer dizer com “Eu não sou criativo” ? Não seria “Deixe para o especialista”? Ora, é exatamente isso que ele está dizendo! O que ele quer é um poeta de aluguel, um mercenário caído dos céus. Ele deveria, isso sim, estar escrevendo os seus próprios poemas.

Usei três metáforas aqui: a sacola, a lata de filme e a projeção. Já que a lata (ou sacola) está fechada e suas imagens permanecem na escuridão, só podemos ver seu conteúdo quando o lançamos – com maior inocência, como costumamos dizer – lá fora no mundo. E então as aranhas se tornam más, as serpentes astuciosas e os bodes libidinosos; os homens tornam-se lineares, as mulheres passam a ser fracas, os russos deixam de ter princípios e todos os chineses se parecem. Apesar de tudo, é precisamente através desse “mar de lama” dispendioso, prejudicial, ruinoso e confuso que acabaremos por entrar em contato com a lama sob nossos pés.

Edição: Shakyamuni

 

Por: shakyamuni

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