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A HISTÓRIA DE MUSHKIL GUSHÁ 11209771_1036495373046189_6273301723065729501_n - “A Tradição Sufi utiliza os contos de ensinamento como uma de suas vias de transmissão espiritual. Esses contos pertenciam à tradição oral, sendo preservados atualmente através de compilações de vários estudiosos e mestres, podendo encontrar-se em diversos livros publicados em numerosos idiomas. Diz-se que os contos provenientes do Sufismo são segredos que se protegem a […] Full view

"A Tradição Sufi utiliza os contos de ensinamento como uma de suas vias de transmissão espiritual. Esses contos pertenciam à tradição oral, sendo preservados atualmente através de compilações de vários estudiosos e mestres, podendo encontrar-se em diversos livros publicados em numerosos idiomas.

Diz-se que os contos provenientes do Sufismo são segredos que se protegem a si mesmos ao longo do tempo. Isto é, sua mensagem é atemporal e contém ensinamentos que só podem ser desvendados de acordo com o nível de conhecimento, capacidade e evolução do indivíduo que a está recebendo. Diz-se também que cada conto tem pelo menos sete níveis de significados, portanto, o seu conteúdo mais sutil se revela no momento em que o discípulo (ou estudante) esteja pronto para recebê-lo." Suzana Stroke

É tradicional ler a história toda quinta à tarde ou à noite, ao compartilhar com familiares e amigos, uma refeição ou uma outra coisa. Se você esquecer ou não for possível contá-la, o anfitrião terá que fazer algo para alguém, que é, afinal, o que esta história ensina.

Mushkil Gusha em persa significa "Removedor de Dificuldades".

Era uma vez um pobre lenhador, viúvo e que vivia com sua filhinha, a menos de mil milhas daqui. Todos os dias, costumava ir para as montanhas cortar lenha, a levava para casa e atava em feixes. Então, depois de se alimentar, ia à cidade mais próxima, onde vendia a madeira, descansava algum tempo e voltava para casa.

Um dia, ao chegar em casa já muito tarde, a filha lhe disse:  ‘Pai, às vezes sinto vontade de comer coisas mais gostosas, uma comida mais farta e variada, estou cansada da comida que temos’.

‘Está bem,  minha menina’, disse o velho, ‘amanhã vou levantar-me muito, muito mais cedo do que costumo. Vou caminhar mais longe pelas montanhas até onde houver mais madeira e trarei maior quantidade de lenha do que de hábito. Voltarei para casa mais cedo e, depois de preparar os feixes de lenha, irei, sem demora, vendê-los na cidade. Assim conseguirei mais dinheiro e vou trazer uma porção de coisas gostosas para você comer’.

Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e foi para as montanhas. Foi um trabalho duro derrubar as árvores, cortá-las em pedaços pequenos e carregar às costas até em casa uma enorme carga de lenha.

Ao chegar em casa era ainda muito cedo. Pôs a carga de lenha no chão atrás da casa e bateu à porta dizendo: ‘Filha, abra a porta, pois estou faminto, com sede e preciso comer antes de ir ao mercado’.

Mas a porta estava trancada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão e logo adormeceu profundamente ao lado do monte de lenha. A menina, tendo esquecido completamente a conversa da véspera, ainda dormia. Horas depois, quando o pai acordou, o sol já estava alto. O lenhador bateu na porta outra vez e disse: ‘Filha, filha, abra a porta, preciso comer alguma coisa e ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que costumo sair’.

Mas, havendo esquecido completamente a conversa da véspera, a jovem já se havia levantado, arrumara a casa e saíra a passeio. Trancara a porta, presumindo que o pai ainda estivesse na cidade.

Pensou, então, o lenhador consigo mesmo: ‘Agora já é muito tarde para ir à cidade. Portanto, vou voltar às montanhas e cortar outro monte de lenha que vou trazer para casa e amanhã levarei ao mercado uma carga dobrada’.

Durante todo o dia, o velho trabalhou nas montanhas cortando árvores e rachando a lenha. Ao voltar à casa, com a madeira sobre os ombros, já era noite.

Colocou a lenha atrás da casa, bateu na porta e disse: ‘Filha, filha, abra a porta pois estou cansado e nada comi o dia todo. Tenho uma carga dupla de lenha e pretendo levá-la amanhã ao mercado. Esta noite preciso dormir bem para recuperar as forças’.

Mas não houve resposta. A mocinha, ao chegar em casa, estava com muito sono. Preparou sua comida e foi para a cama. A princípio ficou preocupada porque o pai ainda não havia chegado, mas concluiu que ele resolvera passar a noite na cidade.

Mais uma vez o lenhador, convencendo-se de que não podia entrar em casa, cansado, faminto e com sede, deitou-se ao lado dos feixes de lenha e adormeceu profundamente. Embora temeroso do que poderia ter acontecido à filha, não conseguiu manter-se acordado.

Devido à fome, ao frio e ao cansaço, acordou o lenhador muito, muito cedo na manhã seguinte: antes mesmo do dia clarear.

Sentou-se e olhou em volta, mas não podia ver nada. Aconteceu então uma coisa estranha. O lenhador pensou ouvir uma voz que lhe dizia: ‘Depressa, depressa! Deixe a lenha e venha por aqui. Se sua necessidade for grande e seu desejo pequeno você obterá delicioso alimento’.

O lenhador levantou-se e caminhou em direção à voz. Andou e andou, mas nada encontrou.

Já então sentia mais fome, mais frio e mais cansaço do que nunca e estava perdido. Saíra cheio de esperança, mas isso não parecia tê-lo ajudado.  Ficou triste e teve vontade de chorar. Mas pensou que chorar também não adiantaria; então se deitou e adormeceu.

Logo acordou de novo. Fazia muito frio e sentia muita fome para poder dormir. Decidiu então contar a si mesmo, como se fosse uma história, tudo o que lhe acontecera, desde que sua filhinha lhe havia dito que desejava alimentos diferentes.

Assim que terminou a história, pensou ouvir outra voz, vinda de cima, saindo da madrugada, que lhe dizia: ‘Meu velho, o que está fazendo aí sentado?’, ‘Estou me contando a minha própria história’, disse o lenhador. ‘E como é sua história?’, perguntou-lhe a voz. O velho repetiu a história.

‘Muito bem’, disse a voz. Então a voz recomendou ao velho lenhador que fechasse os olhos e subisse a escada. ‘Mas não vejo escada alguma’, replicou o velho. ‘Não importa, mas faça o que lhe disse’, insistiu  a voz.

O velho obedeceu. Assim que fechou os olhos, encontrou-se de pé e, ao levantar o pé direito, sentiu que havia alguma coisa como um degrau sob ele. Começou a subir o que lhe pareceu ser uma escada. De repente, a escada começou a mover-se muito depressa e a voz disse: ‘Não abra os olhos, até que eu lhe avise’.

Após curto instante, a voz disse ao velho que abrisse os olhos. Obedecendo, viu que se encontrava num lugar que mais parecia um deserto, onde o sol era muito quente. Estava rodeado por montes e montes de pedregulhos, e eram pedras de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis e brancas. Parecia estar  só. Olhou em volta e não viu ninguém. A voz recomeçou a falar: ‘Apanhe quantas pedras você puder. Depois feche os olhos e desça os degraus mais uma vez’.

O lenhador assim fez. Quando a voz mandou que abrisse os olhos, o lenhador viu que se encontrava em frente à porta de sua casa. Bateu e sua filha veio atender. Perguntou-lhe onde havia estado e ele lhe contou tudo o que lhe havia ocorrido, porém a filha não entendia nada, pois tudo parecia muito confuso.

Entraram em casa, o velho colocou as pedras que trouxera do deserto em um canto do casebre, pareciam pedras comuns e ele não sabia o que fazer com elas. O lenhador e a moça dividiram o resto de alimento que tinham e que era um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram, o velho pensou ouvir uma voz que lhe falava novamente, uma voz exatamente igual à que lhe mandara subir a escada.

A voz disse: ‘Embora ainda não saiba, você foi salvo por Mushkil Gushá. Lembre-se que Mushkil Gushá está sempre aqui. Todas as noites de quinta-feira você deve comer umas tâmaras, dar outras a uma pessoa muito necessitada e contar a história de Mushikl Gushá. Ou então dê um presente, em nome de Mushkil Gushá, a alguém que ajude os pobres. Faça com que a história de Mushikl Gushá nunca seja esquecida. Se assim fizer, e se o mesmo for feito pelas pessoas a quem você contar a história, aquelas que se encontrarem em real necessidade acharão seus caminhos’.

No dia seguinte, o lenhador levou os enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por preço muito alto.

Ao voltar para casa trouxe para a filha toda sorte de alimentos deliciosos como nunca haviam tido antes. Quando acabaram de comer, o lenhador disse: ‘Agora vou contar-lhe toda a história de Mushikl Gushá. Mushkil Gushá é o removedor de todas as dificuldades. Nossas dificuldades foram removidas por Mushkil Gushá e devemos sempre nos lembrar disso’.

Durante quase uma semana o lenhador e sua filha continuaram a levar a vida de sempre. Ele ia às montanhas, trazia lenha, fazia uma refeição, levava  a lenha ao mercado e a vendia. Encontrava sempre comprador, sem dificuldade.

Então chegou a quinta-feira e, como em geral acontece aos homens, o lenhador se esqueceu de repetir o conto de Mushkil Gushá.

Mais tarde, nessa mesma noite, na casa do vizinho do lenhador, o fogo se apagou. Os vizinhos não tinham com que reacender o fogo e foram à casa do lenhador. Disseram: ‘Vizinho, oh! Vizinho, por favor, dê-nos fogo dessas suas lâmpadas que vemos brilhar através da janela’. ‘Que lâmpadas?’, perguntou o lenhador. ‘Venha aqui fora’, disseram os vizinhos ‘e nós lhe mostraremos’.

O lenhador foi lá fora e viu, realmente, muitas luzes brilhantes, que refletiam através da janela, vindas do interior.

O lenhador entrou em casa novamente e viu que as luzes irradiavam do monte de pedras que ele amontoara no canto do casebre. Mas os raios eram frios e não era possível usá-los para acender o fogo. Tornou então a sair e disse: ‘Vizinhos, sinto muito, mas não tenho fogo’. E bateu-lhes a porta na cara. Aborrecidos e confusos, os vizinhos voltaram para casa, resmungando; e aqui saíram da nossa história.

O lenhador e sua filha cobriram rapidamente as luzes brilhantes com todas as peças de roupa que encontraram, com medo de que alguém visse o tesouro que tinham. Na manhã seguinte, quando foram ver as pedras, verificaram que eram gemas preciosas e brilhantes.

Levaram-nas, uma por uma, às cidades vizinhas, onde foram vendidas por alto preço. Então o lenhador decidiu construir para si e sua filha um palácio maravilhoso. Escolheram um lugar bem em frente ao castelo do rei de seu país. Dentro de pouco, surgiu ali um magnífico edifício.

O rei tinha uma linda filha. Esta, um dia, ao levantar-se de manhã, viu uma espécie de castelo de conto de fadas, bem em frente ao palácio de seu pai, e foi tomada de espanto. Perguntou aos servos: ‘Quem construiu este castelo? Que direito tinha essa gente de fazer isso tão perto do nosso palácio?’. Os servos saíram para investigar. Ao voltar, contaram a princesa tudo o que puderam descobrir da história.

A princesa mandou chamar a filha do lenhador, pois estava muito irritada, mas quando as moças se encontraram, logo se fizeram amigas. Começaram a encontrar-se todos os dias e iam nadar e brincar no regato que havia sido feito para a princesa por ordem do rei. Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou do pescoço um lindo e valioso colar e o pendurou num galho de árvore, à margem do regato. Esquecendo-se de apanhá-lo quando saiu da água, supôs que o tivesse perdido.

Repensando um pouco, a princesa se convenceu de que a filha do lenhador tinha roubado o colar. Disse-o ao pai e este mandou prender o lenhador. Confiscou-lhe o castelo e todos os seus bens. O ancião foi atirado numa prisão e sua filha mandada para um orfanato.

Como era costume no país, depois de certo tempo, o lenhador foi retirado da masmorra e levado para uma praça pública, acorrentado a um poste com um cartaz pendurado ao pescoço. No cartaz estava escrito: ‘Isto é o que acontece aos que furtam dos reis’.

A princípio, o povo juntava-se em volta dele, escarnecendo-o e atirando-lhe coisas. O lenhador sentia-se muito infeliz.

Passado, porém, algum tempo – como é comum entre os homens – todos se foram acostumando à presença do velho, sentado ali junto ao poste, e quase não lhe davam atenção. Às vezes, alguém lhe atirava sobras de comida; outras vezes, nem mesmo isso.

Um dia, o velho homem ouviu alguém dizer que era a tarde de quinta-feira. De repente, lembrou-se  que logo seria noite,  a noite de Mushkil Gushá, o removedor das dificuldades, e a quem já há tanto tempo ele se esquecera de comemorar. Assim que esta lembrança surgiu na sua mente, um homem caridoso que por ali passava atirou-lhe uma pequena moeda. O lenhador chamou-o e lhe disse: ‘Generoso amigo, você me deu dinheiro, que de nada me serve. Se, entretanto, quiser ter a bondade ainda maior de comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se aqui e comê-las comigo, eu lhe ficaria eternamente agradecido’.

O homem foi e comprou algumas tâmaras. Sentaram-se e comeram-nas juntos. Quando terminaram, o lenhador contou ao homem a história de Mushkil Gushá.

‘Acho que você está louco’, disse o homem generoso, que era pessoa bondosa, mas que também enfrentava muitas dificuldades. Ao chegar, porém, em casa, depois desse incidente, verificou que todos os seus problemas haviam desaparecido. Isso fez com que começasse a pensar muito seriamente em Mushkil Gushá. Mas aqui ele saiu de nossa história.

Na manhã seguinte, a princesa voltou ao lugar dos banhos. Quando ia entrar na água, viu alguma coisa que parecia ser o seu colar, lá no fundo do regato. No momento em que ia mergulhar, deu um espirro. Levantou a cabeça e viu que aquilo que pensara ser o ser colar era apenas seu reflexo na água. Ele estava dependurado no ramo da árvore, onde o deixara um dia, havia já tanto tempo. Apanhando o colar, a princesa correu alvoroçada à presença do pai e contou-lhe o que acontecera. O rei ordenou que o lenhador fosse libertado e retratou-se publicamente pela injustiça. A moça foi trazida do orfanato e todos viveram felizes para sempre”.

Esses são alguns dos episódios da história de Mushkil Gushá. É um conto muito comprido, que nunca acaba. Tem muitas formas. Algumas não são nem mesmo chamadas de história de Mushkil Gushá, por isso as pessoas não a reconhecem. Mas é por causa de Mushkil Gushá que esta história, sob qualquer forma, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, noite e dia, onde quer que haja gente. Assim como sua história tem sempre sido contada, assim continuará a ser contada, para sempre.

Você quer narrar essa história nas noites de quinta-feira e assim ajudar o trabalho de Mushkil Gushá?

Fonte: as origens exatas são desconhecidas na história de Mushkil Gusha, só se sabe que é uma história muito antiga de tradição oral iraniana.

Pesquisa e edição: Shakyamuni

A HISTÓRIA DE MUSHKIL GUSHÁ

“A Tradição Sufi utiliza os contos de ensinamento como uma de suas vias de transmissão espiritual. Esses contos pertenciam à tradição oral, sendo preservados atualmente através de compilações de vários estudiosos e mestres, podendo encontrar-se em diversos livros publicados em numerosos idiomas.

Diz-se que os contos provenientes do Sufismo são segredos que se protegem a si mesmos ao longo do tempo. Isto é, sua mensagem é atemporal e contém ensinamentos que só podem ser desvendados de acordo com o nível de conhecimento, capacidade e evolução do indivíduo que a está recebendo. Diz-se também que cada conto tem pelo menos sete níveis de significados, portanto, o seu conteúdo mais sutil se revela no momento em que o discípulo (ou estudante) esteja pronto para recebê-lo.” Suzana Stroke

É tradicional ler a história toda quinta à tarde ou à noite, ao compartilhar com familiares e amigos, uma refeição ou uma outra coisa. Se você esquecer ou não for possível contá-la, o anfitrião terá que fazer algo para alguém, que é, afinal, o que esta história ensina.

Mushkil Gusha em persa significa “Removedor de Dificuldades”.

Era uma vez um pobre lenhador, viúvo e que vivia com sua filhinha, a menos de mil milhas daqui. Todos os dias, costumava ir para as montanhas cortar lenha, a levava para casa e atava em feixes. Então, depois de se alimentar, ia à cidade mais próxima, onde vendia a madeira, descansava algum tempo e voltava para casa.

Um dia, ao chegar em casa já muito tarde, a filha lhe disse:  ‘Pai, às vezes sinto vontade de comer coisas mais gostosas, uma comida mais farta e variada, estou cansada da comida que temos’.

‘Está bem,  minha menina’, disse o velho, ‘amanhã vou levantar-me muito, muito mais cedo do que costumo. Vou caminhar mais longe pelas montanhas até onde houver mais madeira e trarei maior quantidade de lenha do que de hábito. Voltarei para casa mais cedo e, depois de preparar os feixes de lenha, irei, sem demora, vendê-los na cidade. Assim conseguirei mais dinheiro e vou trazer uma porção de coisas gostosas para você comer’.

Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e foi para as montanhas. Foi um trabalho duro derrubar as árvores, cortá-las em pedaços pequenos e carregar às costas até em casa uma enorme carga de lenha.

Ao chegar em casa era ainda muito cedo. Pôs a carga de lenha no chão atrás da casa e bateu à porta dizendo: ‘Filha, abra a porta, pois estou faminto, com sede e preciso comer antes de ir ao mercado’.

Mas a porta estava trancada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão e logo adormeceu profundamente ao lado do monte de lenha. A menina, tendo esquecido completamente a conversa da véspera, ainda dormia. Horas depois, quando o pai acordou, o sol já estava alto. O lenhador bateu na porta outra vez e disse: ‘Filha, filha, abra a porta, preciso comer alguma coisa e ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que costumo sair’.

Mas, havendo esquecido completamente a conversa da véspera, a jovem já se havia levantado, arrumara a casa e saíra a passeio. Trancara a porta, presumindo que o pai ainda estivesse na cidade.

Pensou, então, o lenhador consigo mesmo: ‘Agora já é muito tarde para ir à cidade. Portanto, vou voltar às montanhas e cortar outro monte de lenha que vou trazer para casa e amanhã levarei ao mercado uma carga dobrada’.

Durante todo o dia, o velho trabalhou nas montanhas cortando árvores e rachando a lenha. Ao voltar à casa, com a madeira sobre os ombros, já era noite.

Colocou a lenha atrás da casa, bateu na porta e disse: ‘Filha, filha, abra a porta pois estou cansado e nada comi o dia todo. Tenho uma carga dupla de lenha e pretendo levá-la amanhã ao mercado. Esta noite preciso dormir bem para recuperar as forças’.

Mas não houve resposta. A mocinha, ao chegar em casa, estava com muito sono. Preparou sua comida e foi para a cama. A princípio ficou preocupada porque o pai ainda não havia chegado, mas concluiu que ele resolvera passar a noite na cidade.

Mais uma vez o lenhador, convencendo-se de que não podia entrar em casa, cansado, faminto e com sede, deitou-se ao lado dos feixes de lenha e adormeceu profundamente. Embora temeroso do que poderia ter acontecido à filha, não conseguiu manter-se acordado.

Devido à fome, ao frio e ao cansaço, acordou o lenhador muito, muito cedo na manhã seguinte: antes mesmo do dia clarear.

Sentou-se e olhou em volta, mas não podia ver nada. Aconteceu então uma coisa estranha. O lenhador pensou ouvir uma voz que lhe dizia: ‘Depressa, depressa! Deixe a lenha e venha por aqui. Se sua necessidade for grande e seu desejo pequeno você obterá delicioso alimento’.

O lenhador levantou-se e caminhou em direção à voz. Andou e andou, mas nada encontrou.

Já então sentia mais fome, mais frio e mais cansaço do que nunca e estava perdido. Saíra cheio de esperança, mas isso não parecia tê-lo ajudado.  Ficou triste e teve vontade de chorar. Mas pensou que chorar também não adiantaria; então se deitou e adormeceu.

Logo acordou de novo. Fazia muito frio e sentia muita fome para poder dormir. Decidiu então contar a si mesmo, como se fosse uma história, tudo o que lhe acontecera, desde que sua filhinha lhe havia dito que desejava alimentos diferentes.

Assim que terminou a história, pensou ouvir outra voz, vinda de cima, saindo da madrugada, que lhe dizia: ‘Meu velho, o que está fazendo aí sentado?’, ‘Estou me contando a minha própria história’, disse o lenhador. ‘E como é sua história?’, perguntou-lhe a voz. O velho repetiu a história.

‘Muito bem’, disse a voz. Então a voz recomendou ao velho lenhador que fechasse os olhos e subisse a escada. ‘Mas não vejo escada alguma’, replicou o velho. ‘Não importa, mas faça o que lhe disse’, insistiu  a voz.

O velho obedeceu. Assim que fechou os olhos, encontrou-se de pé e, ao levantar o pé direito, sentiu que havia alguma coisa como um degrau sob ele. Começou a subir o que lhe pareceu ser uma escada. De repente, a escada começou a mover-se muito depressa e a voz disse: ‘Não abra os olhos, até que eu lhe avise’.

Após curto instante, a voz disse ao velho que abrisse os olhos. Obedecendo, viu que se encontrava num lugar que mais parecia um deserto, onde o sol era muito quente. Estava rodeado por montes e montes de pedregulhos, e eram pedras de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis e brancas. Parecia estar  só. Olhou em volta e não viu ninguém. A voz recomeçou a falar: ‘Apanhe quantas pedras você puder. Depois feche os olhos e desça os degraus mais uma vez’.

O lenhador assim fez. Quando a voz mandou que abrisse os olhos, o lenhador viu que se encontrava em frente à porta de sua casa. Bateu e sua filha veio atender. Perguntou-lhe onde havia estado e ele lhe contou tudo o que lhe havia ocorrido, porém a filha não entendia nada, pois tudo parecia muito confuso.

Entraram em casa, o velho colocou as pedras que trouxera do deserto em um canto do casebre, pareciam pedras comuns e ele não sabia o que fazer com elas. O lenhador e a moça dividiram o resto de alimento que tinham e que era um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram, o velho pensou ouvir uma voz que lhe falava novamente, uma voz exatamente igual à que lhe mandara subir a escada.

A voz disse: ‘Embora ainda não saiba, você foi salvo por Mushkil Gushá. Lembre-se que Mushkil Gushá está sempre aqui. Todas as noites de quinta-feira você deve comer umas tâmaras, dar outras a uma pessoa muito necessitada e contar a história de Mushikl Gushá. Ou então dê um presente, em nome de Mushkil Gushá, a alguém que ajude os pobres. Faça com que a história de Mushikl Gushá nunca seja esquecida. Se assim fizer, e se o mesmo for feito pelas pessoas a quem você contar a história, aquelas que se encontrarem em real necessidade acharão seus caminhos’.

No dia seguinte, o lenhador levou os enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por preço muito alto.

Ao voltar para casa trouxe para a filha toda sorte de alimentos deliciosos como nunca haviam tido antes. Quando acabaram de comer, o lenhador disse: ‘Agora vou contar-lhe toda a história de Mushikl Gushá. Mushkil Gushá é o removedor de todas as dificuldades. Nossas dificuldades foram removidas por Mushkil Gushá e devemos sempre nos lembrar disso’.

Durante quase uma semana o lenhador e sua filha continuaram a levar a vida de sempre. Ele ia às montanhas, trazia lenha, fazia uma refeição, levava  a lenha ao mercado e a vendia. Encontrava sempre comprador, sem dificuldade.

Então chegou a quinta-feira e, como em geral acontece aos homens, o lenhador se esqueceu de repetir o conto de Mushkil Gushá.

Mais tarde, nessa mesma noite, na casa do vizinho do lenhador, o fogo se apagou. Os vizinhos não tinham com que reacender o fogo e foram à casa do lenhador. Disseram: ‘Vizinho, oh! Vizinho, por favor, dê-nos fogo dessas suas lâmpadas que vemos brilhar através da janela’. ‘Que lâmpadas?’, perguntou o lenhador. ‘Venha aqui fora’, disseram os vizinhos ‘e nós lhe mostraremos’.

O lenhador foi lá fora e viu, realmente, muitas luzes brilhantes, que refletiam através da janela, vindas do interior.

O lenhador entrou em casa novamente e viu que as luzes irradiavam do monte de pedras que ele amontoara no canto do casebre. Mas os raios eram frios e não era possível usá-los para acender o fogo. Tornou então a sair e disse: ‘Vizinhos, sinto muito, mas não tenho fogo’. E bateu-lhes a porta na cara. Aborrecidos e confusos, os vizinhos voltaram para casa, resmungando; e aqui saíram da nossa história.

O lenhador e sua filha cobriram rapidamente as luzes brilhantes com todas as peças de roupa que encontraram, com medo de que alguém visse o tesouro que tinham. Na manhã seguinte, quando foram ver as pedras, verificaram que eram gemas preciosas e brilhantes.

Levaram-nas, uma por uma, às cidades vizinhas, onde foram vendidas por alto preço. Então o lenhador decidiu construir para si e sua filha um palácio maravilhoso. Escolheram um lugar bem em frente ao castelo do rei de seu país. Dentro de pouco, surgiu ali um magnífico edifício.

O rei tinha uma linda filha. Esta, um dia, ao levantar-se de manhã, viu uma espécie de castelo de conto de fadas, bem em frente ao palácio de seu pai, e foi tomada de espanto. Perguntou aos servos: ‘Quem construiu este castelo? Que direito tinha essa gente de fazer isso tão perto do nosso palácio?’. Os servos saíram para investigar. Ao voltar, contaram a princesa tudo o que puderam descobrir da história.

A princesa mandou chamar a filha do lenhador, pois estava muito irritada, mas quando as moças se encontraram, logo se fizeram amigas. Começaram a encontrar-se todos os dias e iam nadar e brincar no regato que havia sido feito para a princesa por ordem do rei. Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou do pescoço um lindo e valioso colar e o pendurou num galho de árvore, à margem do regato. Esquecendo-se de apanhá-lo quando saiu da água, supôs que o tivesse perdido.

Repensando um pouco, a princesa se convenceu de que a filha do lenhador tinha roubado o colar. Disse-o ao pai e este mandou prender o lenhador. Confiscou-lhe o castelo e todos os seus bens. O ancião foi atirado numa prisão e sua filha mandada para um orfanato.

Como era costume no país, depois de certo tempo, o lenhador foi retirado da masmorra e levado para uma praça pública, acorrentado a um poste com um cartaz pendurado ao pescoço. No cartaz estava escrito: ‘Isto é o que acontece aos que furtam dos reis’.

A princípio, o povo juntava-se em volta dele, escarnecendo-o e atirando-lhe coisas. O lenhador sentia-se muito infeliz.

Passado, porém, algum tempo – como é comum entre os homens – todos se foram acostumando à presença do velho, sentado ali junto ao poste, e quase não lhe davam atenção. Às vezes, alguém lhe atirava sobras de comida; outras vezes, nem mesmo isso.

Um dia, o velho homem ouviu alguém dizer que era a tarde de quinta-feira. De repente, lembrou-se  que logo seria noite,  a noite de Mushkil Gushá, o removedor das dificuldades, e a quem já há tanto tempo ele se esquecera de comemorar. Assim que esta lembrança surgiu na sua mente, um homem caridoso que por ali passava atirou-lhe uma pequena moeda. O lenhador chamou-o e lhe disse: ‘Generoso amigo, você me deu dinheiro, que de nada me serve. Se, entretanto, quiser ter a bondade ainda maior de comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se aqui e comê-las comigo, eu lhe ficaria eternamente agradecido’.

O homem foi e comprou algumas tâmaras. Sentaram-se e comeram-nas juntos. Quando terminaram, o lenhador contou ao homem a história de Mushkil Gushá.

‘Acho que você está louco’, disse o homem generoso, que era pessoa bondosa, mas que também enfrentava muitas dificuldades. Ao chegar, porém, em casa, depois desse incidente, verificou que todos os seus problemas haviam desaparecido. Isso fez com que começasse a pensar muito seriamente em Mushkil Gushá. Mas aqui ele saiu de nossa história.

Na manhã seguinte, a princesa voltou ao lugar dos banhos. Quando ia entrar na água, viu alguma coisa que parecia ser o seu colar, lá no fundo do regato. No momento em que ia mergulhar, deu um espirro. Levantou a cabeça e viu que aquilo que pensara ser o ser colar era apenas seu reflexo na água. Ele estava dependurado no ramo da árvore, onde o deixara um dia, havia já tanto tempo. Apanhando o colar, a princesa correu alvoroçada à presença do pai e contou-lhe o que acontecera. O rei ordenou que o lenhador fosse libertado e retratou-se publicamente pela injustiça. A moça foi trazida do orfanato e todos viveram felizes para sempre”.

Esses são alguns dos episódios da história de Mushkil Gushá. É um conto muito comprido, que nunca acaba. Tem muitas formas. Algumas não são nem mesmo chamadas de história de Mushkil Gushá, por isso as pessoas não a reconhecem. Mas é por causa de Mushkil Gushá que esta história, sob qualquer forma, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, noite e dia, onde quer que haja gente. Assim como sua história tem sempre sido contada, assim continuará a ser contada, para sempre.

Você quer narrar essa história nas noites de quinta-feira e assim ajudar o trabalho de Mushkil Gushá?

Fonte: as origens exatas são desconhecidas na história de Mushkil Gusha, só se sabe que é uma história muito antiga de tradição oral iraniana.

Pesquisa e edição: Shakyamuni

Por: shakyamuni

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